O apelo profético do padre Jacques Hamel, «homem bom» que «sacrificou a sua vida pelos outros»

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Padre Jacques Hamel | D.R.

O padre francês Jacques Hamel, que auxiliava o pároco da comunidade de Saint-Etienne, uma das duas paróquias de Saint-Etienne-du-Rouvray, próximo de Rouen, foi morto esta terça-feira, aquando de uma tomada de reféns, na sua igreja, por dois assaltantes ligados ao Daesh.

Nascido em 1930 e ordenado padre em 1958, há quase seis décadas, Jacques Hamel presidia à missa na paróquia que servia há 10 anos quando os homens entraram na igreja e o degolaram, antes de serem mortos pela polícia.

Era «um padre corajoso para a sua idade. Os padres têm direito à reforma a partir dos 75 anos, mas ele preferiu continuar a trabalhar ao serviço das pessoas porque ainda se sentia forte», afirmou o pároco, padre Auguste Moanda-Phuati, ao jornal francês Le Figaro.

«Muito apreciado, era um homem bom, simples e sem extravagâncias. Aproveitámos muito da sua experiência e da sua sabedoria na paróquia de Saint-Etienne. Esteve ao serviço das pessoas praticamente toda a sua vida», acrescentou o sacerdote congolês, que interrompeu as férias para regressar à comunidade.

O padre Aimé-Rémi Mputu Amba, por seu lado, afirmou declarou que o sacerdote assassinado esta manhã «era sempre um raio de sol» nos encontros entre paróquias do sul de Rouen.

«Dizíamos-lhe muitas vezes, a brincar, “Jacques, estás a exagerar um pouco, já é tempo de te reformares”. E ele respondia, a rir, “já viste um padre na reforma? Eu trabalharei até ao meu último suspiro”. Para ele, partir no momento em que celebrava a missa é uma forma de consagração, apesar das circunstâncias dramáticas», acrescentou.

O arcebispo de Rouen, D. Dominique Lebrun, que acompanhava um grupo de jovens à Jornada Mundial da Juventude, na Polónia, publicou na página da arquidiocese uma nota onde declarava que iria regressar a França e apelou à unidade e à paz: «Brado a Deus, com todos os homens de boa vontade. Ouso convidar os não-crentes a unirem-se a este brado! (…) A Igreja católica não pode ter outras armas que não sejam a oração e a fraternidade entre os homens».

O presidente do Conselho Regional do Culto Muçulmano da Normandia, Mohammed Karabila, descreveu o padre Hamel como «um homem de paz, de religião, com um carisma certo. Uma pessoa que dedicou a sua vida às suas ideias e à sua religião. Sacrificou a sua vida pelos outros».

A 6 de junho, o padre Hamel publicou uma nota na folha paroquial, onde apelava à comunidade para aproveitar as férias de verão de modo a tornar o mundo mais humano e fraterno através do encontro e da oração, em particular pela paz e para uma melhor vivência em conjunto.

«As férias são o momento para nos afastamos das nossas ocupações habituais. Mas não é um simples parênteses»: além de «tempo de descontração», servem também de «encontro, de partilha, de convivialidade».

Enquanto alguns reservarão «dias para um retiro ou uma peregrinação», outros «relerão o Evangelho, sozinhos ou com outros, como uma palavra que faz viver o hoje»; haverá também aqueles que contemplarão o «grande livro da criação, admirando as paisagens tão diferentes e tão magníficas» que «elevam» e «falam de Deus», escreveu o padre Hamel.

«Possamos nós nestes momentos ouvir o convite de Deus a tomar cuidado deste mundo, a fazer dele, onde vivemos, um mundo mais caloroso, mais humano, mais fraterno. Um tempo de encontro, com os próximos, os amigos: um momento para reservar tempo para viver algo em conjunto. Um momento para sermos atentos aos outros, sejam eles quem forem», assinalou.

«Um tempo de partilha: partilha da nossa amizade, da nossa alegria. Partilha do nosso apoio às crianças, mostrando que elas contam para nós. Um tempo de oração, também: atentos ao que acontecerá no nosso mundo nesse momento. Oremos por aqueles que têm mais necessidade, pela paz, para um melhor viver em conjunto», prosseguia a mensagem de férias.

No «ano da misericórdia», o sacerdote apelou a que o «coração esteja atento às coisas belas, a cada um e àqueles e aquelas que se arriscam a sentir-se um pouco mais sós».

O nome próprio Jacques (Tiago) evoca o apóstolo homónimo que testemunhou a fé até ao sangue, e o assassinío ocorreu numa igreja dedicada a Santo Estêvão, o primeiro mártir cristão.

 

Le Figaro
Trad. / edição: Rui Jorge Martins 
Publicado em 26.07.2016

 

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