A participação de Maria no Reino de Deus (IX)

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O Magnificat texto que perdura palavra que se expande30

1005417_504207066321658_1999270631_nWalter Brueggemann, estudioso veterotestamentário, explica que, quando um texto bíblico é falado ou lido e recebido pelo ouvinte em épocas e comunidades diferentes, esse texto perdura através do tempo; leituras sucessivas o “recarregam” com significados novos. Quando refletimos sobre o texto e o repetimos, ele se torna um momento de revelação, “o presente é iluminado com renovado vigor e a realidade e transforma de maneira irreversível”. No íntimo relacionamento entre o texto e o leitor surge a palavra intemporal, trazendo consigo a revelação para o dia. Seu significado é examinado da perspectiva de novas situações e revela, escreve Brueggemann, “alguma coisa a respeito desse momento que, sem essa declaração, não seria conhecida, vista, ouvida ou disponibilizada”. O Magnificat é exemplo excelente da permanência de uma tradição tida em alta estima que se reflita e se “recarrega” com novos significados e explode em contextos históricos diferentes.

O cântico de louvor entoado por Ana irrompeu com o novo emprego e notável imaginação ao ser novamente revelado ao pobres e aflitos os anawin da comunidade lucana. Em meio a essas deprimentes realidades, o Espírito geme com os gritos dos oprimidos e a voz profética de Maria precisa voltar a ser ouvida em nosso mundo.

A dimensão cósmica da encarnação31

O mistério da encarnação do Filho de Deus é eixo central da historia e é Maria que forma, de sua carne e sangue, “a carne e sangue que serão reconhecidos como a pessoa do próprio Deus pisando os caminhos da historia”32
                            Maria colaborou decisivamente e sua decisão não só mudou toda sua vida, mas também a da humanidade, porque a encarnação celebra a união do divino e humano em Jesus. A importância da encarnação estende-se muito além de nossa salvação e nossa historia. O conhecimento cientifico nos diz que a jornada evolucionária do cosmos, que começou com uma explosão inicial de energia, culminou uma pessoa e, na encarnação de Deus em Jesus, também se tornou pessoa humana. Portanto, a pessoa humana é lugar de reunião do céu e da terra. Entretanto, Jesus não entrou em um vácuo. Milhões de anos antes que ele entrasse na historia, a força interior divina já estava presente no universo. Gradativamente, quando Jesus veio a perceber que ele e a força divina era um só, ele iniciou todo um novo entendimento do destino humano.

Embora Deus esteja sempre presente na criação, pela encarnação de Deus se fez presente de um jeito novo e dinâmico, que transforma e dá energia ao cosmos. Essa dimensão cósmica leva a profundezas cada vez maiores de silencio e adoração da presença divina, uma identidade silenciosa com o infinito, mistério inimaginável que tudo envolve e do qual ninguém está excluído. Estamos totalmente encerrados no espaço sagrado. A natureza humana foi elevada ao céu, porque Deus decidiu viver em Jesus, por meio de Maria, nos meses de gestação. A liturgia recorda que Maria deu à luz Jesus, “resplendor de sua glória e a expressão do seu ser; sustenta o universo com o poder de sua palavra” (Hb 1, 1-6). Temos proclamações similares em Efésios 1, 9-10 e em Colossenses 1, 15-20.

Nas circunstâncias de seu tempo e lugar, Jesus personificou o ideal da humanidade vivendo com sinceridade e resposta a Deus. Quando o Verbo assumiu a natureza humana, percebemos que Deus levou a natureza e o corpo humano muito a sério. Jesus assumiu nossa humanidade, nossas limitações, nossa fragilidade e, por causa dessa união de Deus em Cristo, nenhuma área da existência humana deixa de ser tocada pela graça divina.

Maria nos fala sobre a divindade presente na humanidade

Essa percepção contemplativa da presença de Deus ajuda-nos a reconhecer que vivemos no mistério de Deus. Tomando-nos divinos e estamos unidos em nossa origem, pois o que aconteceu com Jesus de Nazaré aconteceu com todos nós. A crença no mistério da encarnação nos convida a dar nossa resposta energizada ao Evangelho e a dar à luz Deus, permitindo que tudo que está em nós fique plenamente vivo. Não somos “pobres filhos degredados de Eva”. Maria está profunda e meditativamente envolvida na interpretação do acontecimento da encarnação. Ela nos fala da divindade presente na humanidade; ela nos fala do Verbo que continuamente se faz carne na carne humana, a carne de homens e mulheres. Ela nos chama para sermos fortes e criativos em nossas respostas às potencialidades sagradas da vida, lembrando-nos que se tornar humano está intrinsecamente ligado a se tornar divido.

Conclusão

Maria viveu em solidariedade com a intenção divina de curar, redimir e libertar. Embora nem sempre entendesse a missão de Jesus, Maria permaneceu fiel até o fim, conservando a lembrança de todos esse fatos em seu coração (Lc 2, 51). Como o escriba sábio, ela é calada e medita (veja Eclo 39, 1-3) em seu coração, interiorizado o mistério no fundo e nas profundezas de seu ser (Lc 2, 19). Embora “não entendesse imediatamente tudo que ouviria, mas ouvisse de bom grado, deixando os acontecimentos mergulharem em sua lembrança e procurando descobrir seu significado”33. A dela é uma vida no processo de transformação, enquanto ela ativamente contemplava a Palavra de Deus34. Lucas termina sua descrição de Maria com um enfoque final em seu discipulado, com os membros da comunidade de Jerusalém, nós a vemos à espera de ser revestida com essa “força do Alto”, o dom do Espírito prometido em Pentecostes. Depois de receber o dom do Espírito, ela é inspirada a, com audácia, pregar o Evangelho e, com as outras mulheres nos primórdios da Igreja, “ela é o símbolo da nova aliança da compaixão divina com a humanidade”35.

A valorizada tradição mariana da narrativa lucana da infância perdura. A mensagem angelical, destinada a todos os destruídos e miseráveis, foi primeiramente proclamada a Maria na anunciação, mensagem que foi cumprida com a vida de Deus ao mundo, na encarnação. Magnificat, seu cântico profético e grato, que prevê a proclamação do Evangelho da inversão de todos os valores, explode com mais urgência hoje, quando procuramos formar comunidade que refletem contemplativamente a inter-relação mística de toda realidade que se derramem em justiça, paz e reverência pelo cosmos.

Por Alan Lucas
Gestor

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30W. BRUEGGEMANN, “Texts that Linger: Words that Explode”, Theology   Tody, vol.54 n.2,   Julho   de 1997, p.180-199. Agradeço a Brueggemann as ideias para esta seção.                               
31K. COYLE, “The incarnation, a Cosmic Mystery”. East Asian Pastoral Review 40, 2003, 4, 1. 
32GEBARA & BINGEMER, Maria, Mãe de Deus e mãe dos pobres, p. 70.
33
R. E. BROWN et alii, Mary in the New Testament, p. 150-151.
34JOHNSON, Verdadeiramente nossa irmã, p. 336-337.                               

35 GEBARA & BINGEMER, “Mary”, Systematic Theology: Perspectives from Leberation Theology, Readings from Mysterium Liberationis, p. 168.

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