A participação de Maria no Reino de Deus (VIII)

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A mensagem profética do Magnificat

577114_434159733286562_1699099199_nA tradição da comunidade de Lucas recordou o encontro das duas mulheres que ouviram a Palavra de Deus e continuaram a guarda-la. Lucas achou apropriado atribuir o Magnificat a Maria porque ela era um modelo irresistível de discipulado para a comunidade dele. É a mais longa passagem neotestamentária posta nos lábios de uma mulher. Esse cântico que “proclama alegremente a compaixão indulgente e eficaz de Deus no advento do tempo messiânico” também é lido como protesto contra a “redução ao silêncio ‘dos humildes’ […] [e] contra a supressão das vozes das mulheres”22. Seu louvor das coisas vitoriosas que Deus fez pela comunidade oprimida segue o modelo dos cantos veterotestamentário de louvor divino e descreve a inversão de circunstâncias terrenas nas quais a pessoa reconhece a ação divina e irrompe em cântico como sua suas irmãs profetisas mais primitivas: Maria (Ex 15, 20-21), Débora (Jz 5, 1-31), Ana (1Sm 2, 1-10) e Judite (Jt 16, 1-17).

Isabel e Maria estavam ocupadas em conversa e oração radicais e subversivas que expressavam sua esperança de mudar as estruturas injustas de sua sociedade. A linguagem bíblica sobre os pobres, humildes e destruídos “é clara referência ao povo de Israel, geralmente em condições de dominação e opressão e aflição”23.

Elas apresentam uma perspectiva para a perseverança e estabelecem um programa definitivo daquilo que precisa mudar: o mundo precisa ser virado de cabeça para baixo. Isso só pode ser conseguido depondo os poderosos, exaltando os humildes, os pobres e os marginalizados de seu mundo e cumulando de bens os famintos (Lc 1, 52-53).

Podemos imaginar que, num momento elevado de oração, Maria apropriou-se dos sentimentos e preocupações de Ana depois do nascimento de Samuel (1Sm 2, 1-10) e os entoou num cântico de gratidão. Os estudiosos concordam que o Magnificat é um hino pré-lucano no qual Lucas insere v.48: “porque olhou para a humilhação (tapeinôsin) de sua serva. Sim! Doravante as gerações todas me chamarão bem-aventurada”24. Helen Graham diz que tapeinoi são os sem esperança, sem um futuro previsível. Citando J. F. Forestall, ela acrescenta que tapeinôsis é fundamental para o entendimento do Magnificat25. Os tapeinoi são os destituídos, os pobres, os oprimidos, as viúvas e os órfãos, mas Deus olhou sua aflição e miséria e os “exaltou” (Lc 1, 52b)26. Herman Hendricks sugere27 ser mais provável que Lucas se referisse aos pobres urbanos da cidade onde sua comunidade se situava.

Lucas capta esses ensinamentos para nós no Magnificat, que proclama a inversão de situações e os coloca como prelúdio do anúncio de Jesus e de sua missão para libertar os pobres e os marginalizados (Lc 4, 18-19). No Magnificat ele prevê o que mais tarde Jesus explicará nas bem-aventuranças: como Maria, os pobres entendem de outra maneira, os humildes experimentam outra espécie de poder e os famintos têm sede de justiça. “O Reino trata da vida justa num mundo de injustiça; e a justiça trata sempre de corpos e vidas28. A mensagem profética do Magnificat caracteriza a vinda de Deus como compaixão, o cumprimento da promessa feita a Abraão e Sara. Infelizmente, séculos de recitação mecânica obscureceram a audácia de sua afirmação e sua implicações sociais. Hoje, somos mais uma vez convidados a entoar este cântico que29,

[…] vindo da voz da jovem Maria, dos seios e dos corpos dessa reunião de mulheres, permanece no ar, bradando para sempre as ações de Nosso Deus entre os homens e mulheres e proclamando pelos séculos que o povo pequeno humilde será recompensado na dinâmica do Reino de Deus que se faz carne na comunidade dos fiéis.

Por Alan Lucas
Gestor

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22JOHNSON, Verdadeiramente nossa irmã, p. 319-320.
23H. HENDRICKS, A Key to the Gospel of Luke, Quezon City, MST/Claretiano Publicações, 1992, p. 35
24H. GRAHAM, Mary of Nazareth: Spokesperson of the Anawim in the Gospel of Luke, Ensaio inédito, Manila, 1993, p. 1.
25J. F. FORESTALL, “Old Testament Background of the Magnificat”, Marian Studies 12, 1961, p.211.
26
GRAHAM, There Shall Be No Poor Among You: Essays in Lukan Theology, Quezon City, JMC Press, 1979, p. 6-7.
27Hendricks, The Sermono on the Mount, Manila, East Asian Pastoral Institute, 1979, p. 35.
28J. D. CROSSAN, The Birth of Christianity:Discovering what Happened in the Years Immediately after the Execution of Jesus, Nova York, HarperCollins, 1998, p.xxx. (Tradução brasileira: O nascimento do cristianismo: o que aconteceu nos anos que seguiram à execução de Jesus, São Paulo, Paulinas, 2004, p.36.)
29Navia, p.25.

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