A participação de Maria no Reino de Deus (VI)

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Interpretação patriarcal da anunciação

523005_438951582807377_1507886802_nMaria, meiga, submissa, silenciosa e subordinada, modelo doméstico de obediência feminina, com o qual toda mulher deve se comparar; ela é louvada por viver em menos que a capacidade plena: “Farei tudo o que disseres!” Sua resposta é não raro entendida como dependência passiva da iniciativa divina, o que tem sido mostrado como modelo de santidade, em especial para as mulheres. O fiat de Maria é tradicionalmente interpretado em termos de patriarcado, subordinação e abnegação. Com referência à anunciação, Lumem Gentium (56) expressa esse preconceito: “servindo sob Ele e com Ele, por graça de Deus onipotente, ao mistério da redenção”. Ann Carr contesta esse preconceito androcêntrico* e patriarcal:

Assim, seu retrato teológico como alguém que é completamente passiva, obediente […] é inaceitável hoje. Ao contrário, precisamos dizer que Maria, como os outros discípulos, recebeu a fé na obediência ativa que é a receptividade da fé cristã11.

A história da anunciação não é sobre aquiescência*, mas sobre poder de decisão. É sobre uma jovem numa sociedade patriarcal que concebe e dá a luz seu filho: “o Senhor está contigo!… Não temas… Encontraste graça junto de Deus. Eis que conceberás no teu seio e dará à luz um filho… Filho do Altíssimo… e o seu reinado não terá fim” (Lc 1, 28-33). Ela devia ter 12 ou 13 anos de idade, pois essa era a idade costumeira para os esponsais das jovens. Embora séculos de interpretação patriarcal tenham enfatizado a obediência submissa de Maria, a narrativa lucana não fala sobre uma jovem passivamente perfeita, acabrunhada pelo dever divino, mas sobre uma donzela pobre, senhora de si, que está nas boas graças de Deus e disposta a colaborar com um ousado plano de salvação. Ela é forte o bastante para se arriscar a crer em algo incrível a respeito de si mesma: “o Senhor está contigo!” Lucas procura nos aproximar da experiência espiritual de Maria, da qual brotam sua palavras e oração.

Ela discerne a voz de Deus em sua vida, dando-lhe a missão de uma tarefa momentosa, e se compromete corajosa e livremente a atender o chamado divino. Colabora decisivamente, e sua escolha não só muda toda a sua vida, mas também a da humanidade. Ela deve ser imaginada, então, como pessoa autônoma, sensível e receptiva, corajosa e criativa, que responde à missão divina que recebeu. A mulher sem nome na multidão chama-a de “Feliz” (Lc 11, 27). Lucas repetidamente nos convida a uma vida de mediação. A frase “conservava a lembrança de todos esses fatos em seu coração” (Lc 2, 19.51) lembra textos da história de Israel em que as pessoas conservavam os fatos na memória (Gn 37, 11; Dn 7, 28). A fase também indica a experiência reveladora que causa discernimento e dedicação a uma vida de fiel discipulado – “o tipo de mediação que permite interpretações antes inimagináveis dos acontecimentos e do mundo à nossa volta”.12

Ao invocar Maria na encíclica Deus Caritas Est (Deus é amor), o papa emérito Bento XVI reza: “Entregastes-vos completamente ao chamado de Deus e assim vos tornastes fonte da bondade que brota d’Ele13”. Ele então suplica que também nós possamos ser fonte “de água viva no meio de um mundo sequioso14”.

A interpretação patriarcal de serva ou escrava (doulé) do Senhor “é muito problemática” para as mulheres15. Quando Paulo emprega doulos para descrever de si mesmo: “Paulo, doulos de Cristo Jesus, chamado para ser apóstolo”, ele pensa em ministério e serviço, não em humildade e obediência. Fortalece pelo Espírito, Maria não foi forçada à luz o Messias. Ela agiu como agente responsável e a escolha foi sua. Como Abraão e Sara, ele iniciou uma jornada de fé sem saber aonde ia. Ao analisar a autoridade na Escritura como dialogal, Sandra Schneiders explica que quando um pedido é dirigido a alguém, essa pessoa não é forçada a responder servilmente, mas o pedido impõe, em certo sentido, algum tipo de obrigação de responder16. Obediência do latim ob-audire, que significa “escutar”, é escutar a Palavra de Deus e respondê-la. Lucas apresenta Maria como o discípulo ideal que ouve a Palavra de Deus e a ela responde.

Nesse contexto, obediência e submissão não são negativa de autonomia e, assim entendidas, parecem compatíveis com uma submissão que não é nem degradante nem coerciva17. Portanto, as mulheres não precisam despojar-se da obstinação para serem obedientes à Palavra de Deus. Toda resposta livre a um convite divino é obediência da fé, isto é, fé que se manifesta em obediência. (Rm 1, 5; 16, 26).

McDonnell acrescenta: “Em Lucas, servo é um título de glória e ele coloca Maria entre as figuras eminentes e também os anawim. Para homens e mulheres: melhor ser servo na casa do Senhor que príncipe no palácio do rei”18. Em Pentecostes, onde Maria estava reunida com os discípulos, o Espírito Santo foi derramado como prometido: “Sim, sobre meus servos e minas servas derramarei do meu Espírito” e eles profetizarão (At 2, 18, citando Jl 2, 28-52).

Por Alan Lucas
Gestor

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12M. KO, Magnificat, El Canto e Maria de Nasaret, Salamanca, Sigueme, 2005, p.23-25. 13BENTO XVI, Deus Caritas Est, Deus é amor (42), Dezembro de 2005. 14Ibidem, 42. 15JOHNSON, Verdadeiramente nossa irmã, p. 310.
16S. SCHNEIDERS, The Relevatory Text: Interpreting the New Testament as Sacred Scripture, 2ª ed., Collegevile, The Liturgical Press, 1999, p. 56-57.
17Ibidem.
18J, FITZMYER, Romans, Nova York, Doubleday, 1993, p. 228, citado em McDONNELL, p. 533.
ANDROCÊNTRICO: Termo cunhado pelo sociólogo americano Lester F. Ward em 1903, está intimamente ligado à noção de patriarcado. Entretanto, não se refere apenas ao privilégio dos homens, mas também à forma com a qual as experiências masculinas são consideradas como as experiências de todos os seres humanos e tidas como uma norma universal, tanto para homens quanto para mulheres, sem dar o reconhecimento completo e igualitário à sabedoria e experiência feminina. A tendência quase universal de se reduzir a raça humana ao termo “o homem” é um exemplo excludente que ilustra um comportamento androcêntrico. O seu oposto, relacionando-o com a mulher, designa-se por ginocentrismo. Vale ressaltar que o androcentrismo não deve ser compreendido como misoginia, a qual Darlene M. Juschka faz uma distinção em seu livro Feminism in the Study of Religion: A Reader, de 2001.
AQUIENSCÊNCIA: Consentimento; ação de consentir, de não impedir, de não colocar obstáculos: a aquiescência de uma solicitação, de um pedido. Concordância; ação de concordar, de permitir: não obteve aquiescência do povo. (Etm. aquiescer + ência)

 

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