Misericórdia, a maior revolução da história

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Reflexões de Marco Montrasi, Responsável nacional do Movimento Comunhão e Libertação no Brasil

Confirmata est super nos misericordia eius (Ele tem misericórdia de nós): o desígnio do Pai é a misericórdia, a palavra impossível. Deveria ser a primeira a ser apagada do dicionário, a ser riscada do dicionário, porque a letícia e a alegria – as outras palavras impossíveis – dependem dela: não dependem do estado de ânimo, mas dela, da misericórdia” (L. Giussani).

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Como dizia Dom Giussani, a misericórdia é uma palavra que não se entende, não se aprisiona, não é de esquerda nem de direita, parece fugir a nossa ideia de justiça. A misericórdia é um olhar que perturba tudo, é a coisa mais escandalosa que existe. Deixa-nos atônitos quando somos objeto dela e deixa-nos revoltados quando a vemos agir sobre outros.

Não a entendemos. Quando se encontra um homem que faz transparecer a misericórdia, isto cria confusão, não se entende mais nada. Mas quando se consegue interceptar alguma centelha daquele olhar é impossível não surpreender em nós o difundir-se de um perfume pacificante, dentro da confusão.

Uma vida nova, algo novo, um ser novo quando entra numa outra vida rompe, quebra, dilata. Como quando uma vida é concebida no ventre de uma mulher. Assim, quando entra o germe da misericórdia, não se é mais como antes, torna-se uma outra coisa.  Muda a natureza, o “eu” muda. É uma mutação.

Em abril deste ano, na abertura da Conferência Eclesial da Diocese de Roma, o Papa Francisco afirmou que “o batismo, este passar de ‘debaixo da Lei’ para ‘sob a graça’, é uma revolução”. Bento XVI dizia que acontece uma revolução, mais do que uma revolução, uma mutação: “É a maior ‘mutação’ da história”  (Bento XVI, Homilia Sábado Santo, 15/04/2006).

Um acontecimento deste tipo é incômodo, é absurdo. É intolerável. É como uma mudança de pele. Uma reviravolta. E temos de admitir que não estamos pré-dispostos a essa mudança radical. Deste modo, buscamos fazer de tudo para resistir, e daqui nascem os nossos complôs para reestabelecer a ordem. Vivemos uma estranha contradição: somos feitos para a “desordem” da misericórdia que desarruma tudo, mas tendemos a permanecer na ordem do conhecido, das coisas sob controle.

É uma mudança profunda aquela à qual somos chamados, uma mudança de mentalidade que não acontece senão deixando aquilo que já conheço, as minhas seguranças. Devo estar disposto a deixar-me levar para territórios desconhecidos. Isto é entrar em uma outra dimensão, por isso a proposta contém algo de absurdo, parece impossível.

“É verdade, nós sempre temos o costume de medir as situações, as coisas, com medidas que possuímos, mas são medidas pequenas. Por isso, nos faria bem pedir ao Espírito Santo a graça de aproximarmo-nos pelo menos um pouco, para entendermos este amor e termos vontade de ser abraçados e beijados com a medida sem limites” (Homilia do Papa Francisco na Casa Santa Marta, 20/10/2015).

Acredito que este trabalho proposto pelo Papa Francisco seja a coisa mais simples, mas também a mais difícil de fazer: pedir, suplicar para nos abrirmos a essa nova medida, não para diminuirmos, mas para crescermos. Para nos sentirmos objeto daquela Misericórdia, beijados com aquela medida sem limites.

Por Marco Montrasi

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