Não há amores virtuais, apenas problemas reais

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Hoje, talvez mais do que nunca, o egoísmo e a solidão dominam os mundos em que vivemos.

As chamadas amizades virtuais são ilusões. Como se multiplicam, parece ser bem fácil alcançar o amor perfeito. Mas, na verdade, essas esperanças generosas de que a perfeição está mesmo ali, e que é só uma questão de acertar na porta certa, são a aparência de um grande vazio… um deserto que teme a solidão, tanto quanto teme o encontro. Um vazio que tem tanto medo de si como do outro.

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É um jogo de contradição. Não se quer estar ali, pois que se preferia estar com a pessoa… mas, ao mesmo tempo, prefere-se estar ainda ali do que ir para perto dela… até que, no caso extremo de se encontrarem, em boa parte dos casos, chega a ser tão estranho que as saudades da antiga forma se sobrepõem à realidade… e não se quer estar ali. Prefere-se voltar à busca… à caça… atentos a pequenos sinais e detalhes à espera do milagre que nunca virá.

E, quanto mais se falha, mais esperança fica em potência e mais desespero se acumula para a próxima escolha…

Os amigos não são para matar o tempo. Servem para preencher as necessidades do outro, não o nosso vazio. Amar é dar-se, não é um negócio de troca de benefícios e prejuízos. O egoísmo sim, fica com tudo registado e faz balanços periódicos a fim de avaliar a sua capacidade de gerar lucros para si mesmo. Talvez por isso aos egoístas seja impossível suportar o sucesso daqueles de quem se dizem amigos.

Estes amores virtuais, que de amor só têm mesmo o nome, nascem e morrem por palavras e fotografias. O amor autêntico nasce e cresce em silêncio, aprendendo que a presença do outro é o mais importante, mesmo quando está ausente. Que as maiores alegrias e as maiores tristezas não se podem dizer, tão-pouco fotografar.

O amor implica aceitar o outro como um eterno mistério que se desenvolve à medida que o tempo passa. Que se podem ajustar as rotas, construir um mesmo caminho, a dois… mas que será sempre mais largo, pois que não é um caminho de solidão.

Há uma bondade natural e profunda nas amizades. São compromissos de aceitação. São fortes, sólidas e duradouras. Não têm pressas, tão-pouco são instantâneas. O amor encerra infinitos mistérios, mas para que surja e possa crescer é preciso que o aceitem e que nele se queira investir e trabalhar. Nunca falta apenas um clique. Nunca.

Estas redes virtuais são bons instrumentos de comunicação. Mas não de emoção. Enquanto tivermos um coração e não uma bateria, um cérebro e não um processador, não poderemos considerar estas virtualidades como realidades… menos ainda reduzir realidades a virtualidades.

A virtude do virtual é ser um meio deficiente de chegar a algo valioso. A carta que espero não é a do carteiro.

Estas inclinações pelo prazer, ou por qualquer outra conveniência de circunstância, são apenas ligeiras impressões que se desvanecem pouco tempo depois do seu objeto lhes sair da frente. Paixões momentâneas, esquecimentos instantâneos. Claro que há sempre alguém que sai muito magoado. Mas esta angústia deve-se quase sempre às escolhas que se fizeram, à confiança que se depositou num outro, resultado de uma esperança que foi alimentada por uma ideia errada de que a felicidade chegará completa, perfeita e pronta a usar… isto, claro, em cima do otimismo de que todos temos o direito à felicidade.

Mas a felicidade não é um direito nem um dever. É um dom que, de forma gratuita, se acrescenta àquilo que vamos fazendo, por entre as dores e sofrimentos desta nossa vida. Constrói-se.

O amor nunca desespera. Não atormenta, consola.

Os dias não cansam o amor, as noites não o enfraquecem, os sofrimentos e as finitudes não o diminuem, antes o engrandecem…

José Luís Nunes Martins
3 de outubro de 2015
Ilustração de Carlos Ribeiro

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