No ambiente bíblico: A Assunção da Santíssima Virgem Maria

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Solenidade da Assunção de Nossa Senhora
Introdução

Foi apresentado no último domingo a relação entre a Bíblia e a História diz respeito à forma como a Bíblia é encarada de um ponto de vista historiográfico. A Bíblia – coletânea de livros escritos em várias épocas em sua maioria por autores anônimos – é um livro considerado sagrado por grupos ocidentais. A História é uma disciplina que lida com o estudo de vestígios e documentos de épocas pretéritas tendo por vista pensar o passado. Por muitos anos, o contexto de produção da Bíblia foi simplesmente ignorado, uma vez que o estudo deste livro estava relegado à teologia. Isso mudou quando “uma série de descobertas – o deciframento da escrita hieroglífica egípcia (1822) e o deciframento da escrita cuneiforme acadiana (por volta de 1857) – fez a Bíblia sair de seu ‘esplêndido isolamento’”. Desde então, os textos da Bíblia têm sido lidos como documentos históricos iguais a quaisquer outros – no caso, que preservam informações antigas e importantes ao mesmo tempo em que possuem uma redação tardia e tendenciosa.

Os textos a seguir são de acordo com a Liturgia da Palavra Dominical da Igreja Latina (Igreja Católica Apostólica Romana), em referência à Igreja no Brasil, os textos referem-se ao ano litúrgico B.

LEITURA I – Ap 11,19a;12,1-6a.10ab

Por volta de 70 d.C., o apóstolo João assumiu o trabalho pastoral em Éfeso, o qual incluía as igrejas da região circunvizinha, às quais Apocalipse 2 e 3 refere-se como as sete igrejas da Ásia Menor. Em Roma, Nero, imperador romano, iniciara a perseguição aos cristãos; contudo, ainda não se iniciara o “fogo ardente” de que Pedro fala em sua primeira carta (1 Pd 4, 12ss). No entanto, Domiciano, quando se tornou imperador, intensificou a perseguição aos cristãos. Como ficará evidente nessas páginas da história, Domiciano era um assassino frio. Ele instituiu a adoração do imperador e começava suas proclamações com as palavras: “Nosso Senhor e Deus Domiciano ordena”. Todas as pessoas tinham de se dirigir a ele como “Senhor e Deus”. Ele era implacável na forma de tratar os gentios e os judeus, e, por ordem dele, João foi exilado na ilha de Patmos, uma ilha rochosa, localizada no mar Egeu, com 16 quilômetros de extensão e 9,6 quilômetros de largura. Nessa ilha, havia um campo penal romano em que os prisioneiros trabalhavam em minas. Nesse ponto isolado do mundo, João recebeu as visões que compõem Apocalipse. Ele as escreveu por volta de 95 d.C. Notas introdutórias

As visões do Apocalipse exprimem-se numa linguagem codificada. Elas revelam que Deus arranca os seus fiéis de todas as formas de morte. Por transposição, a visão o sinal grandioso pode ser aplicada a Maria.

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O livro do Apocalipse foi composto no ambiente das perseguições que se abatiam sobre a jovem Igreja, ainda tão frágil. O profeta cristão evoca estes acontecimentos numa linguagem codificada, em que os animais terrificantes designam os perseguidores. A Mulher pode representar a Igreja, novo Israel, o que sugere o número doze (as estrelas). O seu nascimento é o do batismo que deve dar à terra uma nova humanidade. O Dragão é o perseguidor, que põe tudo em ação para destruir este recém-nascido. Mas o destruidor não terá a última palavra, pois o poder de Deus está em ação para proteger o seu Filho.

Proclamando esta mensagem na Assunção, reconhecemos que, no seguimento de Jesus e na pessoa de Maria, a nova humanidade já é acolhida junto de Deus.

LEITURA II – 1 Cor 15,20-27

Paulo escreveu esta Carta em Éfeso, durante a terceira viagem missionária, para remediar os abusos, nomeadamente as divisões e escândalos de que teve conhecimento por mensageiros vindos de Corinto (1,11), e para responder às questões que lhe foram postas por escrito (7,1). Estas circunstâncias explicam o carácter não sistemático da Carta, com a única preocupação de enfrentar as necessidades e resolver as dúvidas dos seus correspondentes.

Ao longo destas páginas, desenha-se o retrato fiel de uma comunidade viva e fervorosa, mas com todos os problemas resultantes da inserção da mensagem cristã numa cultura diferente daquela em que tinha sido anunciada anteriormente. As questões abordadas derivam em grande parte do fenômeno da enculturação do Evangelho em ambiente helenista. Paulo procura esclarecer, mostrando-se firme ao condenar os comportamentos inconciliáveis, mas compreensivo quando a fé não corre perigo.

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A Assunção é uma forma privilegiada de Ressurreição. Tem a sua origem na Páscoa de Jesus e manifesta a emergência de uma nova humanidade, em que Cristo é a cabeça, como novo Adão.

Os cristãos de Corinto enfrentaram várias “tentações”: reduzir a fé cristã a uma sabedoria humana, diversificada à maneira das escolas filosóficas de então (1,10; 3,22); ceder aos imperativos de uma ética sexual, caracterizada, ora por um excessivo laxismo, ora pelo desprezo da carne, segundo as diferentes correntes filosóficas (5,1-3; 6,12-20; 7,1-40); continuar a observar as práticas cultuais do paganismo (cap. 8-13) e a sofrer a influência suspeita das refeições sagradas (11,21) e do frenesim delirante de certos ritos (12,2-3). Tiveram ainda dificuldade em conciliar o mistério fundamental da ressurreição dos mortos com as doutrinas dualistas da filosofia grega (cap. 15).

As soluções propostas estão marcadas pelos condicionalismos culturais de então e pelo concreto da vida; mas não se reduzem a mera casuística já ultrapassada, porque o gênio de Paulo, mesmo quando desce a questões do dia-a-dia, sabe sempre elevar-se aos princípios fundamentais que lhes asseguram perenidade e oferecer-nos uma teologia aplicada ao concreto da vida cristã.

Daqui o interesse e a atualidade desta Carta: através dela, sentimos ao vivo o pulsar de uma comunidade cristã muito rica, a forte personalidade de Paulo, muito consciente das suas responsabilidades, e a presença constante do Ressuscitado que anima a comunidade e a tudo dá sentido.

Todo o capítulo 15 desta epístola é uma longa demonstração da ressurreição. Na passagem escolhida para a festa da Assunção, o apóstolo apresenta uma espécie de genealogia da ressurreição e uma ordem de prioridade na participação neste grande mistério. O primeiro é Jesus, que é o princípio de uma nova humanidade. Eis porque o apóstolo o designa como um novo Adão, mas que se distingue absolutamente do primeiro Adão; este tinha levado a humanidade à morte, ao passo que o novo Adão conduz aqueles que o seguem para a vida.

O apóstolo não evoca Maria, mas se proclamamos esta leitura na Assunção, é porque reconhecemos o lugar eminente da Mãe de Deus no grande movimento da ressurreição.

EVANGELHO – Lc 1,39-56

O terceiro Evangelho é atribuído a Lucas, que também é o autor dos Atos dos Apóstolos. Segue os usos dos historiógrafos do seu tempo, mas a história que ele deseja apresentar é uma história iluminada pela fé no mistério da Paixão e Ressurreição do Senhor Jesus. O seu livro é um Evangelho, uma história santa, uma obra que apresenta a Boa-Nova da salvação centrada na pessoa de Jesus Cristo.

Uma das ideias-chave de Lucas é distinguir o tempo de Jesus e o tempo da Igreja. Sem esquecer a singularidade única do acontecimento salvífico de Jesus Cristo, põe em relevo as etapas da obra de Deus na História. Mais do que Mateus e Marcos, ao falar de Jesus e dos discípulos, Lucas pensa já na Igreja, cujos membros se sentem interpelados a acolher a mensagem salvífica na alegria e na conversão do coração. É isso que faz deste livro o Evangelho da misericórdia, da alegria, da solidariedade e da oração. No respeito pelo ser humano, a salvação evangélica transforma a vida das pessoas, com reflexos no seu interior, nos seus comportamentos sociais e no uso que fazem dos bens terrenos.

Jesus anuncia a sua vinda no fim dos tempos, o qual, segundo Lucas, coincidirá com o termo do tempo da Igreja. Mas a insistência deste evangelista na salvação presente, na realeza pascal do Senhor Jesus, na ação do Espírito Santo na Igreja, contribuem para atenuar a tensão relativa à iminente Parusia. A própria destruição de Jerusalém, vista como um acontecimento histórico, despojando-o da sua projeção escatológica, presente em Mateus e Marcos, é sinal de uma consciência viva do dom da salvação presente no tempo da Igreja.

Na composição do seu Evangelho, Lucas utilizou grande parte de materiais comuns a Marcos e Mateus, além dos que lhe são próprios e dos contatos com o Evangelho de João. Todos os materiais da tradição estão marcados pelo trabalho do autor, que se reflete quer na sua ordenação, quer no vocabulário, quer no estilo. A arte e a sensibilidade de Lucas manifestam-se na sobriedade das suas observações, na delicadeza de atitudes, no dramatismo de certas narrações, na atmosfera de misericórdia das cenas com pecadores, mulheres e estrangeiros. A composição deste Evangelho é situada por volta dos anos 80-90, porque Lucas deve ter conhecido o cerco e a destruição da cidade de Jerusalém por Tito, no ano 70.

O livro é dedicado a Teófilo, mas destina-se a leitores cristãos de cultura grega, como se vê pela língua, pelo cuidado em explicar a geografia e usos da Palestina, pela omissão de discussões judaicas, pela consideração que tem pelos gentios.

Segundo uma tradição antiga (Santo Ireneu), o autor é Lucas, médico, discípulo de Paulo. Pelas suas características, este Evangelho encontra-se mais próximo da mentalidade do homem moderno: pela sua clareza, pelo cuidado nas explicações, pela sensibilidade e pela arte do seu autor. Lucas mostra o Filho de Deus como Salvador de todos os homens, com particular atenção aos pequeninos, pobres, pecadores e pagãos. Para ele, o Senhor é Mestre de vida, com todas as suas exigências e com o dom da graça, que o discípulo só pode acolher de coração aberto.

Por isso, Lucas é o Evangelho da Salvação universal, anunciada pelo Profeta dos últimos tempos que convida discípulos profetas, aos quais envia o Espírito Santo, para que, por sua vez, sejam os profetas de todos os tempos e lugares (Lc 24, 45-49; At 1,8).

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O cântico de Maria descreve o programa que Deus tinha começado a realizar desde o começo, que ele prosseguiu em Maria e que cumpre agora na Igreja, para todos os tempos.

Pela Visitação que teve lugar na Judeia, Maria levava Jesus pelos caminhos da terra. Pela Dormição e pela Assunção, é Jesus que leva a sua mãe pelos caminhos celestes, para o templo eterno, para uma Visitação definitiva. Nesta festa, com Maria, proclamamos a obra grandiosa de Deus, que chama a humanidade a se juntar a ele pelo caminho da ressurreição.

Em Maria, Ele já realizou a sua obra na totalidade; com ela, nós proclamamos: “dispersou os soberbos, exaltou os humildes”. Os humildes são aqueles que creem no cumprimento das palavras de Deus e se põem a caminho, aqueles que acolhem até ao mais íntimo do seu ser a Vida nova, Cristo, para levá-lo ao nosso mundo. Deus debruça-se sobre eles e cumpre neles maravilhas.

Ainda mais…

A Escritura não nos dá nenhuma informação específica sobre a Assunção de Maria. Entretanto, desde os primeiros séculos, os cristãos pareciam estar convencidos da extraordinária santidade de Maria e de seu lugar no plano de Deus. Acreditavam que ela, que foi excepcional durante toda a vida, pelo desígnio de Deus, devia ter um destino final também excepcional. E assim, foram gradativamente levados a afirmar sua Assunção corporal. A crença na Dormição ou Assunção de Maria existe desde o período patrístico tardio. O mais antigo exame da morte de Maria está nos escrito de Epifânio († 403). Ele apresenta duas possibilidades – que ela morreu ou não morreu – e depois confessa que não sabe qual é a verdadeira.

No início do Cristianismo, surgiu uma enorme diversidade de textos. Alguns deles foram incluídos no Novo Testamento (textos canônicos). Outros foram atacados, suprimidos e até mesmo destruídos. Muitos chegaram até os dias atuais e são conhecidos como textos apócrifos, entre os católicos; entre os evangélicos como pseudoepígrafos. Desses, somente em relação ao Novo Testamento foram classificados 60 livros, enumerados entre evangelhos, atos, epístolas, e apocalipses. Cada um deles nasceu num contexto histórico determinado, com intenções específicas, nos informado assim sobre as várias formas de fé e prática cristãs nos séculos II, III e IV. E mais. Também através desses textos é possível evidenciar o processo constitutivo de um grupo cristão primitivo que se estabeleceu como predominante na religião e determinado pelos séculos seguintes no que eles acreditariam, o que praticariam e o que leriam como textos sagrados.

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Muitos desses textos apócrifos mostram detalhes peculiares, que os Evangelhos Canônicos não se interessaram: como por exemplo, os relatos da infância de Jesus, narrando como foi criado, que coisas fez quando criança, como viveu na Família de Nazaré, seu relacionamento com sua mãe, o convívio com seu pai. Outros tratam de temas ou personagens específicos, complementando informações e fatos que, nos Evangelhos Canônicos, não encontramos senão, citações bem lacônicas. Desses escritos, destacamos aqui, os textos sobre Maria, mãe de Jesus. Elucidam detalhes sobre sua vida ou se dedicam a ela especificamente. Alguns deles são bem antigos, datam dos meados século II. Existem ainda uns poucos que são datados na Idade Média, quando a devoção mariana ganhou novas cores e novo vigor. Cito o mais importante em relação ao nosso assunto: Livro de São João evangelista, o teólogo, sobre a passagem da santa mãe de Deus: do século IV este texto conta, principalmente os detalhes da morte de Maria e sua assunção num domingo. 12 – Livro de São João, arcebispo de Tessalônica: organizado em forma de homilia, o texto considera sobre a festa da Assunção de Maria, porém sem os exageros. Datação provável é do século IV. Ele deve grande influência na devoção mariana posterior.

Passaram-se seis séculos antes que se registrassem escritos sobre a Assunção, talvez por causa dos detalhes extravagantes e lendários contidos nos escritos apócrifos sobre Maria durante este período. As primeiras homilias sobre a Assunção foram feitas por Theotoknos de Lívia. (Suas homilias só foram publicadas em 1955 e, assim, não estavam acessíveis ao papa Pio XII, que proclamou o dogma da Assunção em 1950). Theotoknos seguiu a tradição grega da graça vista como divinizadora, por isso ele realçou a ligação entre virgindade, graça e pureza. Desde o século V, já havia uma forte convicção de que o corpo de Maria não se decompôs no túmulo e foi elevado logo depois da morte, reunido a sua alma e transformado pelo poder o Espírito Santo. No século VI, o apreço pela virgindade e a maternidade divina de Maria levou à comemoração do fim de sua vida. A festa da Dormição e Assunção era observada no dia que se acreditava ser o de sua morte e celebrada em 15 de agosto. Uma narrativa apócrifa que alegava dar detalhes de sua morte, seu funeral, o túmulo vazio e a recepção corporal no céu misturou-se à celebração de sua festa.1 Então, em diversas Igreja orientais, a festa da Dormição da Mãe de Deus, a Theotokos, a sempre Virgem, a Santíssima, tornou-se celebração litúrgica popular. Chegou a Roma em meados do século VII, quando se tornou o principal dia de festa de Maria.

O exemplo disso tem um lindo hino o: Tropário Bizantino da Dormição da Mãe de Deus. A legenda do vídeo traz a transliteração do canto em grego, cuja tradução e versão original seguem:

Tradução:

“Em tua maternidade conservaste a virgindade e em tua Dormição não abandonaste o mundo, ó Mãe de Deus. Foste levada para a vida sendo a Mãe da Vida, e por tuas orações resgatas nossas almas da morte.”

Original grego:

Ἐν τῇ Γεννήσει τὴν παρθενίαν ἐφύλαξας, ἐν τῇ Κοιμήσει τὸν κόσμον οὐ κατέλιπες Θεοτόκε· μετέστης πρὸς τὴν ζωήν, μήτηρ ὑπάρχουσα τῆς ζωῆς, καὶ ταῖς πρεσβείαις ταῖς σαῖς λυτρουμένη, ἐκ θανάτου τὰς ψυχὰς ἡμῶν.

A crença nessa doutrina desenvolveu-se principalmente pela pregação e pela literatura devocional. Em vista da missa de Maria como Mãe de Deus, era apropriado que ela provasse a morte, mas não que passasse pela decomposição do túmulo. Embora no Oriente dessem crédito à doutrina da Assunção e celebrassem sua festa, no Ocidente foram externadas dúvidas em obras atribuídas a Jerônimo e Agostinho, bem como São Beda († 735) e Santo Anselmo († 1109). A ideia de sua ascensão corporal ao céu só foi estabelecida firmemente no século XIV.2 A Virgem coroada em esplendor retrata as mais altas aparições da Igreja medieva para si: estar perto de Cristo e reinar suprema não só neste mundo, mas também no mundo  que há de vir. “Coroada, vestida de esplendor e, muitas vezes, sentada em um trono, ela representava o poder da Igreja em geral e do papa em particular”.3

Contínua numa outra oportunidade este fato histórico-teológico em relação à Assunção de Maria Santíssima.

Para a atualização da mensagem da Palavra de Deus em seu sentido histórico para a nossa realidade eclesial, ouça o podcast (aqui), refletindo a liturgia da Palavra deste Domingo.

Espero que estejam gostando e mande sugestões para nossa equipe, até o próximo domingo.


1
JHONSON. “Assuption of the Blessed Virgin”, Encyclopædia of Catholicism, p. 104.
2
BOSS. Empress and Handmaid, p. 181.
3
Ibidem, p. 181.

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