A linhagem de Maria de Nazaré na Sagrada Escritura

Publicado em

A Lumen Gentium faz várias alusões a Maria de Nazaré na linhagem das mulheres do Antigo Testamento e de toda a humanidade. Inspirada nessas ideias, falamos das grandes mães e das grandes matriarcas que a precederam, numa tentativa de encontrar evocações e ressonâncias nas palavras de Maria de Nazaré com essas mulheres que a precederam na sua missão e com as mulheres do Novo 2Testamento.

Poucas pessoas que estudam a Sagrada Escritura escrevem sobre Maria de Nazaré à luz do Antigo Testamento. Começam sempre pelo Novo Testamento, como que esquecendo a origem primeira dessa santa mulher da qual o Vaticano II, na Lumen Gentium, em seu capítulo VIII, faz várias alusões como filha do Antigo Testamento, coroamento apoteótico da mulher que gera filhos e filhas para a fé.

  1. Maria na Constituição dogmática da Igreja

A Lumen Gentium, por duas vezes, afirma que Maria é sacrário do Espírito Santo, mas ao mesmo tempo está unida, na estirpe de Adão e Eva, com todas as pessoas a serem salvas (cf. LG 53). Não só, mas no número 55 fala das alusões a Maria como mãe do Messias no Antigo Testamento – no qual se descreve a história da salvação em que ocorre a preparação da vinda de Cristo – e na Tradição.

A origem da humanidade, segundo a nossa fé, relaciona-se ao mito adâmico, isto é, ao primeiro casal criado por Deus e colocado no jardim do Éden. Essa citação feita pelo documento, para falar de Maria na história da salvação, tem sua raiz no Antigo Testamento, o qual narra o pecado de orgulho que Adão e Eva cometeram contra Deus, querendo ser iguais a ele. Maria, contrariamente, veio como serva e como a mulher que trouxe o Salvador, o Filho de Deus, para toda a humanidade.

Na parte que fala da Anunciação do Senhor, em que Maria responde seu SIM à interpelação de Deus, aponta-se o exemplo que ela nos dá: Maria, como filha de Adão e Eva, dá seu consentimento à Palavra de Deus e, assim, torna-se mãe de Jesus. Nós também, ouvindo a Palavra de Deus e obedecendo a ela, nos tornamos pessoas seguidoras de Jesus, como fez Maria. Daí por diante, ela se dedicou totalmente à causa de seu filho. Nesse sentido, avançou no caminho da fé e manteve-se unida a Jesus para a salvação de toda a humanidade (cf. LG 56-58).

O pecado de orgulho dos nossos primeiros pais não impediu Maria de dizer seu SIM a Deus sobre o que ele lhe pedia – que fosse a mãe de seu Filho, o Salvador da humanidade toda. Por ter dito SIM ao projeto do Pai, Maria refulge para todos nós como aquela que foi concebida sem pecado, foi preservada, cresceu na santidade e venceu todo o pecado, que tem suas tendências dentro de cada um de nós. Maria, entrando intimamente na história da salvação, leva as pessoas a seu filho, ao seguimento dele e ao próprio destino, que é a participação na vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus (cf. LG 65).

Essa é a primeira e mais importante cooperação de Maria na história da salvação, cujo ícone mais claro e evidente é a comunidade de fé reunida em assembleia, a Igreja de Jesus Cristo, Filho de Deus e filho de Maria. A sua cooperação foi livre e inteiramente singular, pela obediência, pela sua fé e pelo amor que nutria pelo projeto divino da salvação, realizado por seu filho, Jesus. Nesse sentido, ela se tornou, para nós, mãe na ordem da graça, porque em toda a história da salvação Maria estava presente com sua cooperação, que continua se estendendo e se estende na milenar missão apostólica da Igreja.

  1. As mulheres que precederam a companheira Maria de Nazaré

Cabe reconhecer que todas as filhas de Israel que desempenharam um papel de cuidado amoroso, de guarda atenta e de libertação junto a seu povo tiveram ressonância na Maria histórica do Novo Testamento e apontaram para a missão de Maria de Nazaré, porque ela vem dessa linhagem. Aqui, podem-se citar, em primeiro lugar, as grandes mães:

Eva, a mãe de todos os viventes, e admira-se nesta mulher seu papel de esposa e a maternidade inicial da humanidade, segundo a Sagrada Escritura.

Sara, nome que significa a princesa, esposa de Abraão, a mulher que, em idade avançada, contra sua própria falta de fé e esperança, dá descendência ao marido, dando à luz Isaac. O autor da carta aos Hebreus interpreta o nascimento de Isaac como uma recompensa de Deus a Sara, que, mesmo tendo duvidado ao ser avisada do fato, considerou fiel o autor da promessa.

E, finalmente, Agar, a mulher que antecede a Sara na descendência, com seu filho Ismael. O deserto no qual ela se encontra a sós com seu filho vem ligado ao nome de um poço com água. Essa figura aponta para o fato de que Deus não cessava de ver seu drama e dele se compadecer, porque esse Deus lhe estava próximo.

  1. Ressonâncias e aproximações com as grandes mães

As ressonâncias que se podem verificar e as aproximações que se podem fazer da atuação dessas mulheres citadas acima com a vida cotidiana de mãe e esposa e a missão de Maria de Nazaré encontram-se, a nosso ver, em sementes ainda não brotadas, no expressivo quadro de Maria ao pé da cruz com o discípulo amado e Maria Madalena. Aqui Maria favorece a fé da humanidade inteira e sua maternidade se dilata, vindo a assumir nesse calvário dimensões universais (cf. Marialis Cultus, n. 37).

A leitura que fazemos dos textos apresentados nos leva a aproximar a falta de fé demonstrada por Sara à dúvida que Maria apresentou a Deus por meio do Anjo, na Anunciação: “Como pode ser isso, se não tenho relações conjugais?” (Lc 1,34). Sara acabou reconhecendo a fidelidade de Deus na sua promessa e por fim acreditou. Maria dá seu consentimento não para solucionar um problema contingente, mas para a obra dos séculos.

Pode-se buscar forte correspondência entre a vida da egipciana Agar, a sós com seu filho Ismael, no deserto, e os momentos e situações de solidão e de penumbra vividos por Maria em meio à sua parentela, ao acompanhar o filho que pregava nas casas e se recusava a responder, diretamente, aos seus e à sua mãe, quando estes queriam falar-lhe. Diante da recusa do filho, Maria aderiu à vontade de Deus mesmo quando pouco ou nada compreendia.

  1. Ressonâncias e aproximações com as grandes matriarcas

No contexto em que interpretamos a atuação das matriarcas do Antigo Testamento, verificam-se fortes ressonâncias e são feitas belas aproximações das súplicas, cânticos e clamores dessas mulheres em favor de seu povo. Tais ressonâncias as encontramos nos lábios de Maria, sobretudo no cântico do Magnificat, com o qual ela rende sua ação de graças a Deus pelas maravilhas feitas a seu povo. Não só, mas podemos encontrar essas aproximações e ressonâncias também em outros momentos, vividos pela Maria histórica de Nazaré durante sua peregrinação terrena.

Maria, a irmã de Aarão

Comecemos por Maria, a profetisa, irmã de Aarão. Tomou na mão seu tamborim, e todas as mulheres a seguiram com tamborins, formando coros de dança. E Maria lhes entoava: “Cantai ao Senhor, pois de glória se vestiu” (cf. Ex 15,20s). E desse jeito foi arrastando atrás de si todas as mulheres, para render graças pela graciosa passagem de seu povo pelo mar Vermelho, sem nada lhes acontecer. O cântico entoado por essa profetisa antecipa a irrupção das mulheres que tiveram contato e vivência com o Messias, o qual pregava o Reino incluindo a todos nessa sua pregação, não só os órfãos, as viúvas e os estrangeiros, mas também as mulheres que não pertenciam à aliança.

Maria, irmã de Aarão, evoca uma Maria histórica determinada, com personalidade própria, como encontramos em Lucas: Maria de Nazaré. Por quatro vezes Maria fala com sua autoridade de mãe. Na Anunciação, quando reage com uma pergunta de dúvida ao Anjo, que lhe dá a notícia de sua maternidade messiânica. A seguir, depois da tensão vivida, totalmente acolhedora: “Eis aqui a serva do Senhor” (Lc 1,38). Na perda de Jesus de volta para casa, depois de celebrar a Páscoa em Jerusalém, mobiliza as mulheres e seus maridos, com quem voltava, para procurar seu filho. Ao encontrá-lo, não lhe poupa a chamada de atenção de que não devia fazer aquilo sem avisar seus pais. Ainda que tenha recebido uma resposta que não entendeu, prosseguiu na sua caminhada. E finalmente, sua palavra de orientação aos serventes nas bodas de Caná: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5).

A irmã de Aarão mostra determinação e criatividade ao tomar a dianteira e arrastar atrás de si todas as mulheres que aí se encontravam depois da passagem do mar Vermelho. Essas mulheres não se contentam apenas com o canto de Moisés e dos israelitas, mas querem fazer ouvir também sua voz de ação de graças. Nada sabemos se o canto de Maria, irmã de Aarão, que dançava e cantava com as outras mulheres, se reduziu a um estribilho ou se foi longo como o canto de Moisés com os israelitas.

 Rute, a mulher estrangeira

Essa também foi uma mulher ousada. Rute era uma estrangeira que se casou com Booz para preservar a descendência davídica, contrariando a própria lei de seu tempo. A sua coragem vai além da lei prescrita daquele tempo, porque toma consciência da situação de seu povo, que clama por um Libertador que venha da descendência davídica. Não duvida, mas insiste. E, na sua insistência, consegue aquilo que quer para o bem de seu povo.

Como tal episódio ressoa na vida de Maria de Nazaré? Acreditamos que todos os momentos vividos por ela no Novo Testamento evocam alguma coisa que nos remete à história de Rute. Mas um deles nos parece mais importante: o texto da genealogia, em que damos de encontro com uma interrupção que traz a descendência matriarcal à frente da patriarcal, em desacordo com as prescrições da Lei. A citação é clara: Jacó gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus (cf. Mt 1). Cristo vem à margem de todo um povo que foi escolhido por Javé para ser sua herança.

Maria encontra-se fora da estrutura da aliança, mas é por ela que o Cristo salvador vem para toda a humanidade. A mulher, naquele tempo, era vista só como a procriadora de filhos e filhas e tinha como visibilidade o ventre crescido; a partir de então, Maria inverte o andamento das coisas e das leis criadas e ditadas pelos patriarcas. A matriarca trouxe o Salvador, e não o patriarca. Isso mostra que Maria, longe de ser uma mulher passiva diante da própria lei, não duvidou em afirmar que o amor do Senhor se estende sobre aqueles que o temem.

 Ana, mãe de Samuel

Ana, mulher de Elcana, era faminta por descendência. Na sua vida estéril, concebe e dá à luz seu filho Samuel, o profeta de Javé que salva seu povo ao chamado do Senhor. O evangelista Lucas se inspira na oração de Ana e faz sua adaptação para o Magnificat de Maria. Começamos por escrever os versos e as expressões que mais se aproximam do Magnificat. Vejamos como Ana faz sua oração diante do altar do Senhor no Templo:

O meu coração exulta em Javé, […] a minha boca se escancara contra meus inimigos, porque me alegro em tua salvação. Não há Santo como Javé e Rocha alguma existe como o nosso Deus. Não multipliqueis palavras altivas, nem brote dos vossos lábios a arrogância […] O arco dos poderosos é quebrado, os debilitados se cingem de força. Os que viviam na fartura se empregam por comida, os que tinham fome não precisam trabalhar […] É Javé quem empobrece e enriquece, quem humilha e quem exalta. Levanta do pó o fraco e do monturo o indigente, para os fazer assentar-se com os nobres e colocá-los num lugar de honra […] Ele guarda o passo dos que lhe são fiéis, mas os ímpios desaparecem nas trevas, porque não é pela força que o homem triunfa.

 Às nossas leitoras e leitores deixamos que encontrem a evocação do Magnificat de Maria nessa oração suplicante de Ana. Essa foi a inspiração do nosso evangelista Lucas ao colocar nos lábios de Maria o cântico tão conhecido de nós todos. O evangelista faz suas belas adaptações dessa oração de Ana que chorava sua esterilidade e que foi ouvida pelo Senhor. Com suas belas ressonâncias e livres aproximações, o cântico de Maria é considerado como a continuidade da presença do Senhor na missão de cada mulher do Antigo Testamento, missão que irrompeu com a vinda de Jesus no meio de seu povo pelo mistério da Encarnação, em que Maria de Nazaré teve sua participação importante e visível.

A rainha Ester

Outra vez damos de frente com a fidelidade do amor de Deus em favor dos filhos e filhas de Israel por meio de mulheres que, desde o Antigo Testamento, foram atentas às suas intuições de verdadeiras mães do povo e obedientes às situações criadas, em meio às quais o Deus da história se revelava. Todas elas, por meio de orações, súplicas e cânticos, puseram em risco a própria vida para salvar o povo dos litígios e buscas do poder pelo poder, que contrariavam o bem comum.

Esse amor ao povo manifesta-se na atitude corajosa de Ester, com a qual aqui nos deparamos: a mulher que salva a nação graças à sua intervenção, pois era uma jovem compatriota do povo judeu que havia se tornado rainha e era orientada por seu tio Mardoqueu. Este também faz sua oração de pedido em favor do povo, seguindo-se a súplica de Ester, que obtém do rei a carta de reabilitação dos judeus, prestes a serem exterminados.

Para conseguir seu intento em favor do povo, a rainha Ester abandona suas vestes suntuosas, veste-se com roupas de aflição e luto, humilha-se e cobre o corpo com os longos cabelos com que costumava adornar-se para aparecer em público com a fronte cingida pela coroa real. Em tal atitude, nestes termos suplica ao Senhor Deus de Israel:

A nós e a meu povo, salva-nos, Senhor, com tua mão poderosa, vem em nosso auxílio, pois estamos sós e nada temos fora de ti, Senhor! […] Tu sabes o perigo por que passamos, e eu tenho horror das insígnias de minha grandeza, que me cingem a fronte quando apareço em público. […] Tua serva não comeu à mesa dos reis inimigos do meu povo, nem apreciou os festins reais, nem bebeu o vinho das libações. Tua serva não se alegrou desde que esta situação de perigo se estabeleceu no meio de meu povo, a não ser em ti, Senhor, Deus de Abraão!

 E a rainha Ester apresentou-se ao rei. Este se agradou de sua beleza e nobres sentimentos e concedeu ao povo judeu a liberdade que todos suplicavam. Ester apresenta-se ao Senhor como sua serva, e não como rainha de seu povo. Apresenta-se confiada somente na força do Senhor de Abraão e de seus filhos e filhas para sempre, como prometera a nossos pais.

O cântico de Maria evoca outra vez, a nosso ver, a coragem de Ester no que se refere à sua intercessão contra a dominação das nações vizinhas que escravizavam o povo hebreu, o qual era vendido por seus reis como mercadoria a outros povos para pagamento de suas dívidas externas. Eram realezas inteiras e reis que comandavam essa guerra de poder contra o povo, afastando-o sempre mais da descendência a partir da qual Israel punha sua esperança na vinda do verdadeiro Libertador.

Deve-se enfatizar que era essa a consciência que permanecia viva em todo Israel. Quando Maria de Nazaré abre a boca para render graças pela libertação de Israel, inclui a celebração desses fatos todos a fim de refrescar a memória de um povo sofrido e jogado à própria sorte pelos poderosos e pela força de seus tronos ambiciosos.

 A juíza Débora

A palavra Débora quer dizer abelha, inseto que visita todas as flores que pode para construir seu favo de mel. O simbolismo que traz em seu nome é muito rico: a abelha é organizada, laboriosa e infatigável. Não se submete porque tem asas e canto. Sublima o seu trabalho em mel imortal o frágil perfume das flores. É o quanto basta para conferir elevado alcance espiritual daquilo que representa o mel, fruto de seu labor incessante, paralelamente ao simbolismo temporal. Operárias da colmeia asseguram a perenidade da espécie. “Imitai a prudência das abelhas”, recomenda Teolepto de Filadélfia, citando-as como exemplo na vida espiritual das comunidades monásticas.

Cabe sublinhar que, por causa de seu mel e de seu ferrão, a abelha é considerada o emblema de Cristo: por um lado, sua doçura e sua misericórdia e, por outro, o exercício de sua justiça na qualidade de Cristo-juiz (cf.Dicionário de símbolos, Ed. José Olympio, p. 3-4).

Retornando à juíza Débora, deve-se reconhecer ainda que esta acompanhava de perto as intrigas e as brigas dos israelitas e, por isso, é conhecida como a juíza atuante que regula a conduta de seu povo. Muita gente ia consultá-la para pedir-lhe orientação sobre a questão que pesava sobre o povo de Israel oprimido pelo rei dos cananeus. Quando Débora conseguiu a libertação de Israel, junto com Barac, que trabalhou com ela para esse fim, entoaram um cântico de louvor e de ação de graças por essa conquista. É considerada também, no próprio cântico, “mãe em Israel” (cf. Jz 5). Como esse fato histórico ressoa no Magnificat de Maria de Nazaré e nas bodas de Caná?

Em sua experiência de comunidade, Lucas inspira-se em sua fonte própria, que é o Antigo Testamento, e faz de Maria de Nazaré a mulher profética e revolucionária da história da salvação com o cântico do Magnificat. Entoa sua ação de graças pela chegada do Filho de Deus, o Salvador de toda a humanidade. É claro que o contexto sempre é outro, mas a essência da Tradição revelada por Deus a seu povo permanece em nossos dias.

Evoca também a intervenção de Maria nas bodas de Caná (cf. Jo 2,1-10). Após ter falado com seu filho, Maria de Nazaré dirige-se aos serventes, para dizer-lhes que fizessem o que Jesus lhes ordenasse. A teologia feita na perspectiva da mariologia avança no sentido de pensar que Maria não foi a única mulher que percebeu a falta de vinho. Mas quem se sensibilizou com o fato foi a mãe de Jesus, ainda que tenha sido apoiada e até mesmo alertada pelas mulheres presentes. Trata-se não de regular um litígio, mas de evitar uma vergonha para os noivos. Maria intervém como aquela que reconquista a alegria da festa dos nubentes.

Pode-se explicar esse fato quando chegamos a alargar nossa interpretação do início desta perícope: “Houve um casamento em Caná da Galileia e a mãe de Jesus estava lá”. Ela se antecipou ao filho, provavelmente com outras suas comadres e amigas que iam para ajudar na preparação da festa daquele casamento.

A nosso ver, parece bastante manifesta a liderança de Maria no desenrolar dos acontecimentos em tal evento. Teria sido também alertada por suas companheiras que a acompanhavam nessa preparação festiva e consultada sobre o que fazer diante da situação de tensão que se havia criado.

Podemos também encontrar belas ressonâncias e efetuar belas aproximações do cântico de Maria de Nazaré com a atuação das grandes mães quando Maria reconhece que o Deus todo-poderoso fez nela grandes coisas, entrando assim para a história de seu povo que vive a expectativa do Messias. Maria prossegue proclamando que Deus exalta os humildes, pois era uma humilhação a esterilidade materna de Sara; e, finalmente, a deserdada e esquecida Agar, com seu filho, merece, no cântico do Magnificat, a acolhida de Israel, porque Deus é fiel ao amor que prometeu às pessoas expulsas e esquecidas, dando-lhes descendência.

Maria de Nazaré denuncia em alta voz, no chamado núcleo duro do Magnificat: derrubou poderosos de seus tronos para salvar seu povo; Deus manifestou o poder de seu braço para dispersar não só os soberbos, mas também os poderosos de coração duro, despedindo-os da vida sem os bens que haviam acumulado com sua corrupção contra um povo indefeso e oprimido.

  1. Como Maria se aproxima das mulheres do Novo Testamento

Encontramos Maria na mesma condição de todas as mulheres da desconhecida Nazaré, que fazem o trabalho de casa e atendem a tudo aquilo que se refere à vida cotidiana. O livro publicado pelo frei Clodovis Boff que traz o título O cotidiano de Maria de Nazaré, escrito em linguagem narrativa e muito bem fundamentado, descreve alguns trabalhos realizados por Maria e algum tipo de presença dela junto às mulheres de seu tempo. Assim relata esse autor:

Maria é a primeira a despertar pela manhã. Desperta e se apronta. Aqui temos sua presença de mãe de família que sempre se antecipa ao filho e ao pai. Em seguida põe a casa em ordem. Tudo deve estar em seu lugar antes de tomar a primeira refeição do dia. Quem serve é ela. Acompanha a oração da manhã que o pai e o filho fazem, voltados para a direção do Templo de Jerusalém.

Maria vai apanhar água na fonte e lá se encontra com suas conhecidas, comadres e amigas. É o momento de se trocarem as notícias que correm pela pequena Nazaré, sobre todas as coisas e novidades que a elas interessam. Depois desse belo encontro, cada uma toma seu cântaro e volta ao trabalho. Prepara o pão de cada dia e troca experiências com as amigas e comadres mais próximas dela, sobre como o pão cresceu e ficou apetitoso para a família toda, ou se não deu lá tão certo desta vez.

Cuida do filho que até os cinco anos fica junto à mãe, sob seus cuidados diretos, e ele “cresce em sabedoria, estatura e graça”. Maria não trabalha só em casa, mas ajuda o marido no campo e na sua oficina de carpinteiro Os hebreus têm apreço pelo trabalho manual. Havia um dito entre os rabinos que dizia o seguinte: “Um trabalhador ocupado em sua tarefa não precisa se levantar diante de um doutor, por maior que seja”. Paulo, por exemplo, era fabricante de tendas (cf. At 18,3).

Maria trabalhava também em casa: fiava, tecia e lavava roupa, servia a ceia e preparava o repouso da noite. Como não pensar que, quando ia à sinagoga, encontrava-se com as outras mulheres mais próximas e também as que poucas vezes via durante o ano! Quando subia a Jerusalém para celebrar a festa da Páscoa, preparava-se com a melhor roupa e fazia um penteado muito bonito. Era um momento de encontro e de celebração que se dava só uma vez por ano. Por isso também era bastante curtido e aproveitado.

Já falamos de Maria nas bodas de Caná. Lá estava ela, com as outras mulheres, no meio da festa e toda feliz! Como teria ficado solidária à viúva de Naim, cujo filho Jesus fez reviver outra vez! Ela não estava presente só nas horas alegres, como no casamento, mas também num enterro, quando as pessoas choravam seus falecidos, como foi o caso do filho da viúva de Naim.

Maria não só vai a um casamento e a um enterro, mas também a um nascimento. Lembremos aqui sua visita a Isabel, à casa da qual se dirigiu às pressas para ajudá-la no trabalho de parto de João Batista, que se tornou o precursor de Jesus! E, finalmente, está presente no nascimento da Igreja, no cenáculo, esperando a vinda do Espírito Santo. A aproximação de Maria não é só com as mulheres, mas também com os homens, os apóstolos, escolhidos por Jesus para continuarem a pregação do Reino. Foi acolhida pelo discípulo amado, que, com certeza, não a deixou sozinha, mas na sua companhia, e com todo o carinho e amor estava pronto a atendê-la sempre que precisasse.

Por tudo isso, e por mais do que isso, Maria é inspiração para todas nós, mulheres que servimos dentro e fora de casa, na Igreja e fora dela, nas pequenas comunidades de fé. 

  1. Tentativa de explicar a linhagem da fé vivida por Maria de Nazaré

Em primeiro lugar, reconhecemos que a teologia feita na perspectiva de Maria de Nazaré e de sua missão na história da salvação consiste num esforço de não separar a mãe do Salvador das demais mulheres que a precederam nessa missão, de acordo com a interpretação dada a tais fatos após a ressurreição de Jesus, o Cristo da fé.

O tipo de linhagem genealógica de Maria de Nazaré é da árvore davídica messiânica. O povo não esperava que o Messias viesse por meio de uma humilde mulher do interior da Galileia. O esforço que fizemos para chegar a fundamentar as evocações, as ressonâncias e as aproximações das mulheres do Antigo Testamento com as do Novo Testamento, sobretudo com as atitudes e comportamentos da mulher de Nazaré, é apenas uma tentativa de explicar a diferença existente entre a Maria da história, que só encontramos no Novo Testamento, e a Maria da fé, construída pela experiência do povo de todos os continentes de tradição cristã e católica.

Queremos justificar por que quisemos iniciar este nosso artigo com a Constituição Lumen Gentium, que fala da Igreja em seu oitavo e último capítulo como coroamento da caminhada terrena do povo. Foram as alusões que esta faz a Maria de Nazaré como filha do Antigo Testamento e à mesma origem de toda a humanidade que nos inspiraram e nos ajudaram a encontrar ressonâncias, aproximações e evocações da presença de Maria, em germe, na contribuição dada pelas grandes mães e pelas grandes matriarcas que lutaram em favor de seu povo.

Maria, ao tomar consciência, ainda que de maneira apenas entrevista, de seu lugar e missão na história da salvação, traz para a realidade de seu tempo tudo o que pôde entrever de sua ânsia e de sua espera a respeito da imagem escatológica da Igreja e de toda a humanidade. Essa mesma foi a ânsia e a esperança das mulheres das quais falamos ao longo desta reflexão mariológica centrada em Cristo.

Bibliografia

BÍBLIA APÓCRIFA. Morte e assunção de Maria. Trânsito de Maria. Livro do descanso. A história do nascimento de Maria. Protoevangelho de Tiago. Petrópolis: Vozes, 1991.

BOFF, Clodovis. Mariologia social: o significado da Virgem para os dias de hoje. São Paulo: Paulus, 2010.

______. O cotidiano de Maria de Nazaré. São Paulo: Salesiana, 2003.

BOFF, Lina. A misericórdia divina em Maria de Nazaré. Convergência, n. 276, out. l994.

______. Maria, a mulher inserida no mistério de Cristo. Atualidade Teológica, n. 3, p. 25-40, jul.-dez. 1998.

______. O advento e a pessoa de Maria. Convergência, n. 327, jan. 1999.

______. Maria e os pobres de Javé. Convergência, n. 310, p. 107-115, 1998.

______. Maria na vida do povo: ensaio de mariologia na ótica latino-americana e caribenha. São Paulo: Paulus, 2001.

______. Mariologia: interpelações para a vida e para a fé. Petrópolis: Vozes, 2010.

______; BUCKER, Bárbara; AVELAR, Maria Carmem. Maria e a Trindade: implicações pastorais – caminhos pedagógicos – vivência da espiritualidade. São Paulo: Paulus, 2002.

BOFF, Leonardo. A Ave-Maria: o feminino e o Espírito Santo. Petrópolis: Vozes, 1980.

______. O rosto materno de Deus: ensaio interdisciplinar sobre o feminino e suas formas religiosas. Petrópolis: Vozes, 1979.

FORTE, Bruno. Maria, a mulher ícone do mistério: ensaio de mariologia simbólico-narrativa. São Paulo: Paulus, 1991.

GEBARA, Ivone; BINGEMER, Maria Clara. Maria, mãe de Deus e mãe dos pobres: um ensaio a partir da mulher e da América Latina. Petrópolis: Vozes, 1987.

JOÃO PAULO II. Redemptoris Mater (A mãe do Redentor). São Paulo: Paulinas, 1989.

PAULO VI. Marialis Cultus: o culto à bem-aventurada Virgem Maria. São Paulo: Paulinas, 1974.

PINKUS, Lucio. O mito de Maria: uma abordagem simbólica. São Paulo: Paulus, 1991.

VV.AA. Maria nas Igrejas: perspectivas de uma mariologia ecumênica. Concilium, n. 188, 1983.

______. Maria y la mujer. Vida Religiosa, n. 64, maio 1988.

Por Lina Boff, smr

Ir. Lina Boff é professora emérita da Pontifícia Universidade Católica do Rio; professora de Mariologia na Faculdade dos Franciscanos em Petrópolis e professora convidada para bancas de admissão de professores ordinários pelo Antonianum de Roma. Publica em várias revistas, escreve e organiza livros.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s