Nhá Chica, um exemplo para uma «Igreja em saída»

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A expressão «Igreja em saída» é do Papa Francisco, que desde o início do seu pontificado nos tem desafiado a ser uma Igreja que não se fecha sobre si mesma, em seus assuntos de sacristia e cúria, mas que se abre às reais necessidades da humanidade, de quem é servidora. Na sua primeira entrevista à revista Civilità Cattolica, a papa disse: «Vejo a Igreja como um hospital de campanha depois de uma batalha. É inútil perguntar a um ferido grave se tem o colesterol ou o açúcar altos. Devem curar-se as suas feridas. Depois podemos falar de tudo o resto. Aquilo de que a Igreja mais precisa hoje é a capacidade de curar as feridas e de aquecer o coração dos fiéis, a proximidade».

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Foto: Luca Sennaro

Na sua exortação apostólica «A alegria do Evangelho», o papa dedica todo o primeiro capítulo ao tema da «Transformação missionária da Igreja», e a certa altura ele afirma: «Essa alegria é sinal de que o evangelho foi anunciado e está dando fruto. Mas, sempre tem a dinâmica do êxodo e do dom, de sair de si, de caminhar e semear sempre de novo, sempre mais adiante» (EG, 21), e, ainda, «A Igreja em saída é a comunidade de discípulos missionários que “primeream” (tomam a iniciativa, adiantam-se, vão primeiro), que se envolvem, que acompanham, que frutificam e festejam» (EG, 23).

Dentro em breve, em 2016, vamos celebrar os 200 anos do êxodo da Beata Francisca Paula de Jesus – Nhá Chica – de São João Del’Rei para Baependi. Não conhecemos bem as motivações dessa mudança. Contudo,sabemos que, na vida dos santos, nunca falta a experiência do êxodo. Viveu-a Abraão, ao deixar a sua terra e a sua família por ordem de Deus: «Sai da tua terra e vai para onde eu te vou mostrar» (Gn 12,1). Viveu-a todo o povo de Israel, que saiu do Egito, da terra da escravidão, guiado por Moisés, à procura da Terra da Promessa, onde há vida e liberdade, onde «corre leite e mel» (Ex 13,3ss) e então percebeu-se como «povo de Deus». Por fim, viveu-a nosso Senhor Jesus Cristo, que sendo rico, fez-se pobre; sendo Deus, fez-se homem, «esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo, tornando-se em tudo semelhante aos homens; e, feito homem, humilhou-se, obedecendo até à morte, e morte de cruz» (Fl 2,7-8). Viveu-a também Nhá Chica ainda criança, deixando com sua mãe e seu irmão o arraial de Santo Antônio do Rio das Mortes, onde se criara, onde estavam os parentes, onde havia alguma segurança, ainda que pequena, para descortinar uma vida nova na vila de Baependi, naquela altura promissora pelos desenvolvimentos da agricultura local e da recente elevação à categoria de vila, mas sem dúvida uma vida cheia de insegurança, de encontro com o desconhecido. Isto não deixou de moldar na beata e em sua família a confiança em Deus e na Senhora da Conceição, e também uma abertura existencial para acolher o diferente, o sofredor, o pobre como eles.

Nhá Chica
Foto: Arquivo Pessoal

Eis o nosso desafio hoje: fazer o nosso êxodo, não apenas geográfico, mas espiritual; ter a coragem de sair de nós mesmos, das nossas zonas de conforto, das regras e leis que nos dão segurança, dos nossos domínios e arriscar-nos numa «Igreja em saída», que sobretudo acolhe – como acolhia a beata Nhá Chica – os mais pobres, que acolhe os aflitos, que acolhe os diferentes, os que não pensam como nós, que não vivem a fé como nós, que não se comportam como nós, que acolhe sem perguntar «se tem o colesterol ou o açúcar altos», que acolhe e «cura as feridas, aquece o coração, se aproxima (torna-se próximo)».

O santuário é este espaço de acolhida, de abertura, onde todos têm vez e voz, onde todos devem encontrar alguém que os escute, os abrace, cure as suas feridas, lave os seus pés peregrinos, aqueça o seu coração e os faça sentir-se em casa, na casa de Nhá Chica. Mas, para isso, a beata hoje precisa de nós, de cada um de nós que vai ao santuário para que sejamos nós os acolhedores, os escutadores, os abraçadores, os lavadores de pés em seu nome. Assim nos aproximaremos, a exemplo dela, da «Igreja em saída», da «Igreja hospital de campanha» a que nos desafia o papa Francisco e o exemplo de Francisca.

Por Pe. Jean Poul Hansen

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