Após 35 anos, dom Oscar Romero é declarado mártir

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“Alguém que derramou seu sangue por Jesus Cristo só pode ser santo. E eu fico feliz, porque o Monsenhor Romero agora vai ser reconhecido e cultuado como santo. Isso é o que ele realmente foi e é.”

Dom Oscar Romero_2 - Reprodução
Dom Oscar Romero deixou como legado a humildade

Essa é a opinião da teóloga e decana do Departamento de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, Maria Clara Bingemer. Ela é autora do livro Dom Oscar Romero – Mártir da Libertação, publicado pela Editora Santuário.

A escritora comemora o reconhecimento do martírio do ex-arcebispo de El Salvador, assassinado enquanto celebrava uma missa, em 1980. Há cerca de um mês, o Papa Francisco autorizou a publicação do decreto de reconhecimento do martírio do Servo de Deus. Após nove anos de espera, a promulgação do decreto abriu caminho para o processo de beatificação de dom Romero. O postulador da causa é o presidente do Pontifício Conselho para a Família, dom Vincenzo Paglia.

Ainda em janeiro, alguns dias antes do reconhecimento, o Papa já havia confirmado a jornalistas, durante a viagem de volta a Roma, após visita às Filipinas, que dom Oscar Romero seria beatificado. Na ocasião, o Santo Padre adiantou que a cerimônia de beatificação deveria ser presidida pelo cardeal Angelo Amato, presidente da Congregação para as Causas dos Santos, ou pelo postulador da causa.

Para Maria Clara, a decisão tem uma importância enorme. “Reconhece-se que a morte dele foi uma morte por amor total e incondicional a Deus e a seu reino. Isso valida com um selo inegável sua vida. O martírio é o caminho mais curto e certo para a santidade”, argumenta.

Um legado de humildade

Maria Clara Bingemer - Reprodução
Maria Clara Bingemer: “Era um homem de profunda oração e santidade de vida, profundamente espiritual e ao mesmo tempo super-comprometido com a justiça, a liberdade e a paz. É certamente um modelo a imitar. A vida dele faz refletir profundamente sobre até que ponto e em profundidade se pode seguir Jesus Cristo e dar testemunho do Reino de Deus”

Segundo a teóloga, o principal legado deixado por dom Oscar Romero é a sua humildade. “Esse é o testemunho de um arcebispo que, a certa altura de sua vida, se converte e muda de visão. Ao presenciar o martírio do padre Rutilio Grande, monsenhor Romero passou a defender fortemente os pobres, que eram constantemente atacados e agredidos pelo regime de El Salvador”, afirma. De acordo com a estudiosa, a vida do arcebispo era pautada no Evangelho e serve de modelo para todos os cristãos. “Era um homem de profunda oração e santidade de vida, profundamente espiritual e ao mesmo tempo super comprometido com a justiça, a liberdade e a paz. É certamente um modelo a imitar. A vida dele faz refletir profundamente sobre até que ponto e em que profundidade se pode seguir Jesus Cristo e dar testemunho do Reino de Deus”, declara. 

O processo de beatificação de dom Oscar Romero ficou vários anos parado e foi reaberto justamente sob o pontificado do primeiro Papa latino-americano, que conhece bem a vida e a história do mártir. Para Bingemer, esse fator é importante e pode ter ajudado, mas se o Papa eleito não tivesse sido o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio, a decisão do Vaticano seria a mesma. “A Igreja acabaria chegando a essa conclusão. Em todo caso foi muito bom que o Papa Francisco desbloqueasse o processo de canonização de dom Oscar Romero, que estava parado há muito tempo”, comemora.

Para ela, a demora em reabrir o processo tem como principal motivo um aspecto político. “Havia uma conotação política em sua vida e mesmo em sua morte. Ele havia se oposto fortemente ao governo de seu país, exigindo-lhe que parasse com a violência contra os pobres. Muitas pessoas da Igreja, inclusive, opuseram-se a ele, antes e depois de sua morte. Por isso, a alguns setores mais conservadores, não interessava que ele fosse reconhecido como mártir. Porém agora não há mais dúvida”, explica.

Teologia da Libertação?

A resistência também tem a ver com o fato de que a luta do arcebispo salvadorenho em defesa dos mais pobres o colocava, em alguns aspectos, em consonância com os adeptos da Teologia da Libertação (TL). As ideias do movimento, consideradas de cunho marxista, foram combatidas pelo Papa João Paulo II e pelo então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal Joseph Ratzinger, que depois viria a ser o Papa Bento XVI.

Porém, outros setores negam essa relação, ressaltando o respeito de dom Oscar Romero ao magistério e à hierarquia da Igreja, além dos elogios que teria feito à atuação da Opus Dei em El Salvador. Conta-se que, ao ser transferido para o país, chegou com fama de conservador.

“Fui frequentemente ameaçado de morte. Como cristão, não acredito na morte sem ressurreição: se me matarem, ressuscitarei no povo salvadorenho. Digo isso sem nenhuma ostentação, com a maior humildade. Como pastor, sou obrigado, por mandato divino, a dar a vida por aqueles que amo, que são todos os salvadorenhos, até por aqueles que me assassinarem. O martírio é uma graça de Deus, que não me sinto na situação de merecer, entretanto, se Deus aceitar o sacrifício de minha vida, que meu sangue seja semente de liberdade. Pode escrever: se chegarem a me matar, desde já eu perdoo e benzo aquele que o faça”
(Dom Oscar Romero, ao Jornal Excelsior, do México, duas semanas antes de sua morte)

Segundo a escritora, dom Oscar certamente era próximo da TL e tinha muitos amigos entre os adeptos do movimento. Entre eles, Jon Sobrino e Ignacio Ellacuria. “Sua linha de pastoral, seus discursos e homilias estão em direta sintonia com a Teologia da Libertação. Porém era um homem muito fiel à Igreja. Jamais entraria em confronto direto com a hierarquia. Por isso alguns dizem que ele não era da Teologia da Libertação. Mas a TL nunca quis estar fora da Igreja. Ao contrário, sempre foi uma teologia eclesial”, defende.

Por conta dessa ligação, alguns críticos afiram que beatificar dom Oscar Romero seria beatificar a Teologia da Libertação. Maria Clara Bingemer discorda. “Acho que não procede. Aliás, com todo o respeito, é uma bobagem. Como assim beatificar a TL? Não se beatificam correntes teológicas e sim pessoas. Beatificar dom Romero é atestar sua santidade, seu compromisso inquebrantável com o Deus de Jesus Cristo, com o evangelho anunciado aos pobres e com a Igreja dos pobres, que ele tanto amou e da qual foi um dos protagonistas”, conclui.

Mártir da Igreja

“Romero é verdadeiramente um mártir da Igreja do Vaticano II, uma Igreja que é mãe de todos, particularmente dos mais pobres”. Assim se referiu a dom Oscar Romero o postulador da causa de beatificação do bispo salvadorenho, o cardeal dom Vincenzo Paglia.

Dom Romero foi morto no dia 24 de março de 1980 por um franco-atirador do exército salvadorenho, enquanto celebrava uma missa no Hospital da Divina Providência, na capital, San Salvador. Às 6h da tarde, no momento da consagração, o arcebispo foi atingido no coração. O atirador estava escondido atrás da porta do fundo da capela. Dom Oscar morreu na hora.

Romero lutava contra o regime cruel e sangrento que dominava El Salvador. Segundo a pesquisadora da vida do arcebispo, a teóloga Maria Clara Bingemer, ele permanece vivo no povo do pequeno país da América Central. “Não existe um só salvadorenho nos dias de hoje que não fale com carinho extremo de Monsenhor Romero e não reconheça nele um pai e um protetor. E não há um cristão que não deva conhecer a vida e a trajetória deste grande bispo, que é exemplar para todos aqueles que hoje se dispõem a seguir Jesus de Nazaré”, afirma.

Canonização

Dom Oscar Romero_3 - Reprodução
Processo de beatificação começou em 1994. Entretanto, decreto de reconhecimento do martírio de dom Oscar foi autorizado pelo Papa Francisco há cerca de um mês

O processo começou há mais de 20 anos, mais precisamente em 1994. Na entrevista coletiva na qual anunciou o reconhecimento do martírio de dom Oscar Romero, o cardeal dom Vicenzo Paglia revelou que foi o Papa emérito Bento XVI quem retomou a causa de canonização, em 2012. Desde o início, o processo contou com o apoio do Papa João Paulo II, que, em 2000, manifestou o desejo de incluir dom Oscar Romero na celebração do Jubileu dos Mártires. 

Sobre as acusações de ser comunista, o cardeal afirmou que se tratava de um rótulo facilmente colocado sobre qualquer pessoa que se posicionasse em defesa dos pobres.

Segundo dom Vincenzo, a decisão da comissão teológica e da comissão dos cardeais a respeito do martírio foi unânime. Ele ressaltou que o bispo foi assassinado durante a celebração da missa.

Quando visitou o Brasil, em 2007, o então Papa Bento XVI já havia afirmado crer no martírio de dom Oscar Romero. “Foi certamente uma grandiosa testemunha da fé, um homem de grandes virtudes cristãs, que se comprometeu pela paz e contra a ditadura, e que foi assassinado durante a celebração da Missa. Portanto, uma morte verdadeiramente credível, de testemunho da fé”, disse.

Dom Vicenzo Paglia atribuiu à Providência Divina o fato do arcebispo latino-americano ser declarado beato pelo primeiro papa vindo desse continente e que desde o início do seu pontificado tem pedido uma Igreja pobre para os pobres.

Em 2010, o soldado responsável pela morte de dom Oscar Romero, capitão Álvaro Saravia, admitiu que o arcebispo foi assassinado “por ódio à fé”. O depoimento contribuiu para dar seguimento ao processo.

Por ter sido reconhecido como mártir, dom Oscar Romero não precisará da comprovação de um milagre para ser beatificado. Essa exigência só será necessária para que seja declarado santo. Os restos mortais do futuro beato estão na Catedral de San Salvador.

Defensor dos pobres

Dom Oscar Romero_5 - Reprodução
Oscar Arnulfo Romero Gadamez, chamado São Romero da América Latina desde o dia de seu martírio

Oscar Arnulfo Romero Gadamez nasceu no dia 15 de agosto de 1917, em Ciudad Barrios, El Salvador. Membro de uma família numerosa e pobre, quando criança tinha uma saúde frágil. Entrou para o seminário aos 13 anos. Aos 20, foi completar os estudos de Teologia em Roma, onde foi ordenado, em 1943.

Retornou a El Salvador, onde foi pároco durante 26 anos. Generoso, visitava os doentes, lecionava nas escolas, foi capelão do presídio. Na época, os pobres da região faziam fila na porta da casa paroquial, onde recebiam ajuda. Padre Oscar conheceu a miséria profunda que assolava o país.

Na década de 1970, El Salvador vivia grandes conflitos, enquanto a maioria dos países sul-americanos eram dominados por ditaduras militares. Em 1977, ele foi nomeado arcebispo de El Salvador, chegando à capital com fama de conservador.

Dois anos depois, o presidente do país foi deposto por um golpe militar. A ditadura se instalou e acirrou a violência. Reinou o caos político, econômico e institucional no país. De janeiro a março de 1980 foram assassinados 1015 salvadorenhos. Os responsáveis pertenciam às forças de segurança e às organizações conservadoras do regime militar instaladas no país.

Entre os mortos, dois sacerdotes que ousaram defender camponeses que pediram abrigo em suas paróquias. Dom Romero teve de se posicionar, colocando-se no meio do conflito, para tentar resolvê-lo. Ameaçado de morte, o arcebispo criticava duramente a inércia do governo, as interferências estrangeiras e as injustiças praticadas pelos grupos revolucionários. Naquele mesmo ano, dom Oscar Romero pagou com a própria vida o preço por ser discípulo de Cristo.

O padre José Oscar Beozzo, historiador, teólogo e pesquisador da vida do arcebispo salvadorenho, atesta que, apesar do bloqueio do processo de beatificação durante tantos anos, desde o dia do martírio Oscar Romero é considerado santo. Em artigo publicado no site Adital, o estudioso afirma que desde então ele é invocado com o título de São Romero da América Latina.

Segundo o historiador, antes mesmo do reconhecimento da Igreja Católica, outras denominações cristãs já haviam incluído dom Oscar Romero em seus calendários litúrgicos como mártir, exemplo de vida e santidade e inspiração para os fiéis. Foram os casos da Igreja Anglicana da Inglaterra e a Igreja Luterana da Alemanha.

“Quando Bento XVI, a 17 de setembro de 2010, adentrou como primeiro Papa a fazê-lo, o imponente portal oeste da Abadia de Westminster de Londres teve que passar por sob a estátua de Oscar Romero perfilada ao lado do pastor batista Martin Luther King, de Ghandi, e de outros mártires do século XX, ali representados”, escreve Beozzo.

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