Virgem Maria e a mediação de Cristo

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Texto anterior: A Virgem Maria na teologia conciliar 

A mediação de Cristo

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Influenciado por uma atmosfera de sensibilidade ecumênica, o concílio estava agora ansioso para ressaltar a mediação exclusiva de Cristo. Como a teologia pré-conciliar enfatizou Maria como medianeira de todas as graças, o concílio tomou o cuidado de colocar sua mediação na estrutura de Cristo e da Igreja. Onde o papel é central, o papel de Jesus está desvirtuado, pois ele desvia a atenção da centralidade da missão redentora dele. O concílio deu repetida ênfase a Cristo como nosso único intercessor, que atrai a si a todos os fiéis. 7 Ele é o único sacerdote da Nova Aliança cujo o sacerdócio é compartilhado por todo o povo de Deus. Antes de falarem sobre a mediação de Maria, os padres conciliares salientaram a mediação única de Cristo. Escolheram uma passagem de 1º Timóteo que enfatiza a universalidade da salvação: “Pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, um homem, Cristo Jesus, que se deu em resgate por todos nós” (1Tm 2, 5-6). O papel de Maria como nossa mãe não diminui essa mediação única de Cristo; ao contrário, revela sua eficácia:

Todavia, a materna missão de Maria a favor dos homens de modo algum obscurece nem diminui essa mediação única de Cristo, mas até ostenta sua potência, pois todo o salutar influxo da bem-aventurada Virgem a favor dos homens não se origina de alguma necessidade interna, mas do divino beneplácito. Flui dos superabundantes méritos de Cristo, repousa na sua mediação, dela depende inteiramente e dela aufere toda força. De modo algum impede, mas até favorece a união imediata dos fiéis com Cristo.8 

Quando o documento afirma que a Igreja invoca Maria como medianeira, apressa-se em acrescentar que esse título não tira nem acrescenta nada à dignidade e eficácia de Cristo, o mediador único. Com essa firme convicção em mente, deve ser incentivada a reverência especial com que os fiéis veneram a memória de Maria, e que assumiu formas diversas em culturas diferentes.

Com o coração de mãe, Maria roga continuamente pelos que ainda estão no caminho, cheios de dificuldades. Por esta razão, é chamada na Igreja (não pela Igreja, como dizia o texto original) por muitos títulos como Auxiliadora, Medianeira… Cristo está no centro, os fiéis têm união imediata com ele, que a todos dá poder do Espírito. 9

Embora o capítulo VIII da Constituição Dogmática reflita a natureza transicional de muitos dos documentos conciliares, sua abordagem é essencialmente bíblica, cristocêntrica, eclesiológica, ecumênica e pastoral. O documento está em oposição ao zelo mariano que se firmava havia um século e meio. Afasta-se da mariologia pré-conciliar, que se concentrava em Maria e seus privilégios e promovia títulos e dogmas marianos. Embora o tema dominante nesse breve capítulo de Lumen Gentium seja Maria como tipo e modelo de Igreja, é interessante notar que ela nunca é mencionada como “Mãe da Igreja”. Apesar de ser um sério corretivo de certas ênfases passadas, infelizmente essa constituição não situa a discussão sobre Maria dentro dos sinais dos tempos. Não houve nenhum diálogo com o mundo moderno, que é a chave para o espírito do concílio; não foi sugerida diretriz para uma autêntica devoção a Maria. Teólogos feministas apressam-se a nos lembrar de que o concílio continua a louvar Maria como a mulher dos serviços aos outros, de Deus, de Cristo, da Igreja e da redenção; ela não tem nenhum significado teológico próprio. 10

Além disso, leituras não críticas dos textos bíblicos continuam a usar a tipologia Eva-Maria. Ficou para o período pós-conciliar descobrir uma autêntica teologia mariana para nossa época.

 Alan Lucas de Lima | Gestor  do Pequeno Monge Agostiniano

5 Lumen Gentium, 54.

6 Lumen Gentium, 52,  67.

Ibidem, 62. 

8 Ibidem, 60

9 JOHNSON, “Saints and Mary”, p. 483.

10 M. HINES, “Mary and The Prophetic Mission of the Church”, Journal of Ecumenical Studies 28, 2, Primavera de 1991, p. 281-297.

 

Próximo texto: Os frutos do concílio 

 

 

 

 

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