Maria na teologia do Vaticano II

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Texto anterior: O culto a Maria e sua influência na vida das mulheres

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Como vimos no início, no século que precedeu o Concílio Vaticano II, os mariólogos dedicaram-se com vigor ao estudo do papel de Maria no mistério da salvação. Os excessos da crença popular não só não eram bíblicos, como atraíam as pessoas a uma espiritualidade particular, em resultado da qual a figura de Maria assumiu prerrogativas divinas que alcançaram o apogeu às vésperas do Concílio Vaticano II. Era tarefa de o Concílio colocar a teologia marial dentro dos limites de uma teologia e uma prática confiável.

Para conseguir isso, Maria precisava “descer de seu glorioso pedestal medieval da Contrarreforma e juntar-se a nós”. 1 O Concílio e a Marialis Cultus de Paulo VI convidaram a mariologia a iniciar um dialogo criativo com as mudanças culturais de nosso tempo, a sair do isolamento e estabelecer elos com os grandes temas teológicos, em vez de ser um sistema voltado para si mesmo:

Fará com que ser torne mais vigoroso e genuíno o culto á Santíssima Virgem: sólido nos seus fundamentos, pelo que, nele, o estudo das fontes reveladas e a atenção aos documentos do Magistério hão de prevalecer sobre a descomedida busca da novidade e de fatos extraordinário, […] pelo que deverá ser banido dele tudo aquilo que é manifestamente lendário ou falso. 2

As discussões conciliares apresentaram um sério corretivo a esses excessos. Com todo o empenho “[o Concílio] exorta os teólogos e os pregadores da Palavra divina a que, na consideração de singular dignidade da Mãe de Deus, se abstenham com diligência tanto de todo o falso exagero quanto da demasiada estreiteza de espírito”. 3 O Concílio reverteu a tendência de promover uma doutrina e devoção mariais que isolavam Maria de Cristo e do resto da Igreja.

O lugar de Maria na redenção era discutido desde o século II. Através dos séculos, a teologia refletira sobre a colaboração de Maria com o plano divino da salvação na anunciação, o início de uma vida de dedicação que terminou finalmente na oferenda sacrifical de si mesma, em união com seu Filho aos pés da Cruz (Jo 19, 25-27). Alguns afirmaram sua colaboração imediata e aproximada na obra da redenção e sugeriram meios diferentes pelos quais Maria colaborou. Dois temas principais  que interessavam a esses teólogos: Maria como “corredentora” e como “medianeira” de todas as graças, temas que se preocupavam com o papel de Maria na redenção operada por seu Filho e com a aplicação dos frutos dessa redenção à humanidade.

O título de “medianeira” remonta no século XV. Na Encíclica mariana Ad Diem Illun, Pio  (1903-1914) afirmou:

Todavia, por aquela comunhão de dores e angústias, já mencionada entre a Mãe e o Filho, foi concedido à augusta Virgem ser “junto a seu Filho a poderosíssima medianeira e conciliadora do mundo inteiro […] Uma vez que Maria [..] foi associada ao Cristo na obra da redenção, ela nos alcança “por conveniência” […] aquilo que Jesus Cristo no alcançou “por direto”, sendo a suprema dispensadoras de graças. 4

O título de “corredentora” foi usado em declarações oficiais sob Pio X e empregado por Pio XI, nos ensinamentos do magistério era mais comum falar da colaboração de Maria em nossa redenção, distanciando-a, assim do título de corredentora.

 Alan Lucas de Lima | Gestor  do Pequeno Monge Agostiniano

Próximo texto: Teologia conciliar

1D. FLANAGAN, “The Signo of the Virgin, Doctrine and Life”, The Theology of Mary, 44, Maio/Junho 1994, p. 271.

2 PAULO VI, “Marialis Cultus” 38, em Documentos da Igreja, vol. 3, Documentos de Paulo VI, São Paulo, Paulus, 1997, p.359.

3 Lumem Getium, 67.

4 PAPA PIO X, “Carta encíclica Ad Diem Illum 19”, em Documentos da Igreja, vol. 3, Documentos de Pio X e de Bento XV, São Paulo, Paulus, 1997, p. 39-40.

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