Liturgia: Mistério da Salvação – Parte III

Publicado em Atualizado em

Neste terceiro artigo sobre os ensinamentos de Monsenhor Guido Marini a respeito da liturgia, o texto reflete sobre adoração e união com Deus na Santa Missa

Na adoração eucarística o homem reconhece a beleza do Senhor e tende a glorificá-lo, colocando-se de joelhos e em atitude de plena comunhão. Ali no altar reside Deus, o Santo dos Santos, que se fez carne para nutrir a alma e o coração da humanidade durante a sua peregrinação nesta terra, assim como o maná do céu nutriu o povo que caminhava no deserto. E é por isso que o Bem-aventurado João Paulo II fez questão de enfatizar na sua Encíclica Ecclesia de Eucharistia que “a Igreja vive da Eucaristia”. Sem uma, a outra não pode existir.

Com efeito, complementa o mestre de cerimônias pontifícias, Monsenhor Guido Marini, “diante da beleza indizível da caridade de Deus, que toma forma no mistério do Verbo encarnado, morto e ressuscitado em nosso favor, e que encontra na liturgia a sua manifestação sacramental, não nos resta outra coisa senão permanecer em adoração”. E aqui cabe lembrar aquela belíssima oração ao Cristo Eucarístico que o Anjo de Portugal ensinou aos três pastorinhos, antes da aparição da Virgem Maria em Fátima: “meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-vos. Peço-vos perdão pelos que não creem, não adoram, não esperam e não vos amam”.

Sendo a Missa, portanto, o lugar do encontro com Deus nas espécies eucarísticas, é de suma importância que todos os sinais da liturgia conduzam à adoração. E isso, observa Marini, inclui “a música, o canto, o silêncio, a maneira de proclamar a Palavra de Deus e o modo de rezar, as vestes litúrgicas e objetos sagrados, como também o edifício sagrado no seu complexo”. Tudo deve ser belo, pois Deus é belo. Não se trata, porém, de esteticismo ou espetáculo, mas de conceder a Deus o seu devido culto, uma vez que na liturgia deve resplandecer o mistério da beleza do amor de Deus. É o que praticaram santos como São João Maria Vianney e São Josemaria Escrivá que, não obstante à vida de pobreza e imensa caridade, sempre buscaram celebrar a Eucaristia com os melhores paramentos possíveis. Eis o que ensina também o Papa Emérito Bento XVI:

“As nossas liturgias da terra, inteiramente dedicadas a celebrar este gesto único da história, nunca conseguirão expressar totalmente a sua densidade infinita. Sem dúvida, a beleza dos ritos jamais será bastante requintada, suficientemente cuidada nem muito elaborada, porque nada é demasiado belo para Deus, que é a Beleza infinita. As nossas liturgias terrenas não poderão ser senão um pálido reflexo da liturgia que se celebra na Jerusalém do céu, ponto de chegada da nossa peregrinação na terra. Possam, porém, as nossas celebrações aproximar-se o mais possível dela, permitindo-nos antegozá-la!” (Cf. Homilia durante a celebração das Vésperas na Catedral de Notre Dame, Paris, 12 de Setembro de 2008)

É exatamente nesta perspectiva que se insere a decisão de Bento XVI de, a partir de 2008, distribuir a Sagrada Comunhão diretamente na língua dos fiéis de joelhos. Ora, o próprio Santo Agostinho advertia: “ninguém come desta carne, sem antes adorá-la”. Ademais, é importante salientar que a comunhão na boca e de joelhos é um direito dos católicos assegurado pela Santa Sé: “todo fiel tem sempre direito a escolher se deseja receber a sagrada Comunhão na boca ou se, o que vai comungar, quer receber na mão o Sacramento”, (nº 92; vid. ainda Missale Romanum, Institutio Generalis, nº 161). A isso também se soma a lição da Exortação apostólica pós-sinodal Sacramentum caritatis que “receber a Eucaristia significa colocar-se em atitude de adoração diante daquele que recebemos” (n. 66)

Por outro lado, algumas teologias difundiram em vários ambientes uma ideia um tanto quanto materialista acerca do Sacramento da Comunhão, como se não fosse necessário adorá-lo, somente comê-lo. Há também a acusação de que a adoração obscureceria a dimensão social da caridade. Todavia, a história dos santos mostra uma realidade totalmente diversa. Basta pensar nas horas em que Madre Teresa gastava à frente do sacrário para se desfazer esse pensamento equivocado. Na verdade, novamente explica Guido Marini, “somente através de uma renovada adoração do mistério de Deus em Cristo, mistério que toma forma no ato litúrgico, poderá brotar uma autêntica comunhão fraterna e uma nova história de caridade, conforme a fantasia e heroicidade que só a graça de Deus pode doar aos nossos pobres corações”.

Neste sentido, o Papa Francisco deu um belo exemplo a toda a Igreja, quando a 2 de junho convocou uma adoração eucarística universal, na qual dioceses do mundo inteiro se reuniram para adorar o Senhor no mesmo horário que o seu vigário. Como não recordar o belíssimo hino de Santo Tomás de Aquino, Adoro te devote? Adorar a Cristo com devoção significa reconhecer Nele o bondoso pelicano, aquele que lava a sujeira do mundo com o próprio sangue, sendo uma só gota capaz de salvar todo o mundo e apagar todo pecado.

Source: Christo Nihil Praeponere

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s