Liturgia: mistério da salvação – Parte II

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Neste segundo artigo sobre o trabalho do mestre de cerimônias pontifícias, Monsenhor Guido Marini, o blog faz uma reflexão a respeito da orientação da oração litúrgica

Arranjo beneditino no altar principal da Basílica de São Pedro, em Missa Celebrada por Bento XVI

 

A pessoa a quem o cristão se dirige quando reza é Deus. Pense-se, por exemplo, no diálogo introduzido pelo prefácio, no momento da liturgia eucarística, quando o sacerdote se volta para o povo e diz: “corações ao alto” e a assembleia responde: “o nosso coração está em Deus”. É o tempo no qual pastor e rebanho se recolhem e olham juntos para o céu à procura da luz que emana de Cristo. É uma ação sobretudo interior, mas que através da sabedoria da Igreja, ganhou sinais exteriores de modo a indicar a correta atitude espiritual do fiel.

A disposição arquitetônica das igrejas e os espaços litúrgicos foram alguns dos elementos que buscaram simbolizar – ao longo da história – a maneira como os cristãos rezam. Tradicionalmente, a chamada oração voltada para o oriente também foi um desses sinais. Conforme explica o mestre de cerimônias pontifícias, Monsenhor Guido Marini, entende-se por oração voltada para o oriente o “coração orante orientado para Cristo, do qual provém a salvação e para o qual todos tendem como Princípio e Termo da história”. Mas por que para o oriente? Porque é onde nasce o Sol, e sendo ele símbolo de Cristo, a Tradição achou por bem acolher na Liturgia o que é dito de maneira simples no Evangelho de São Lucas: “O sol que surge no Oriente vem nos visitar” (Cf. Lc 1, 78).

Posto isso, não é difícil de entender o quão equivocadas são certas críticas à maneira como a Igreja celebrava a Santa Missa antes da reforma litúrgica de Paulo VI. Afirmar que o sacerdote rezava de costas para o povo é, no mínimo, injusto. Pelo contrário, a posição do celebrante indicava que tanto ele quanto o resto da assembleia estavam direcionados para o verdadeiro protagonista da Celebração Eucarística: Jesus Cristo. E mesmo no Missal de 1969, no qual o ministro celebra de frente para a assembleia, é a Deus que as orações se dirigem, pois como explica Marini, a expressão celebrar voltado para o povo não tem significado teológico, sendo apenas uma descrição topográfica. Ademais, “a missa, teologicamente falando, está voltada para Deus, através de Cristo nosso Senhor, e seria um grave erro imaginar que a orientação principal da ação sacrifical fosse a comunidade”, ensina Marini.

Na Liturgia, indica o Concílio Vaticano II, “os sinais sensíveis significam e, cada um à sua maneira, realizam a santificação dos homens” (Cf. Sacrosanctum Concilium, n. 7). Nisso se insere a proposta de Bento XVI, radicada naquilo que se convencionou chamar arranjo beneditino. Trata-se, explica o Santo Padre, de “não buscar novas transformações, mas colocar simplesmente a cruz no centro do altar, para a qual sacerdote e fiéis possam juntos olhar, para deixarem guiar de tal maneira voltados para o Senhor, a quem oramos todos unidos” (Introdução ao espírito da liturgia, p. 70-80). Uma vez que não é para o celebrante que o fiel deve olhar durante esse momento litúrgico, mas para o Senhor, a cruz – lembra Guido Marini – “não impede a visão; ao contrário, lhe abre o horizonte para o mundo de Deus, e a faz contemplar o mistério, a introduz no céu, de onde provém a única luz capaz de dar sentido à vida neste mundo”.

O ponto central da Santa Missa é onde se encontra o Senhor, e por isso a presença do crucifixo no altar ajuda a comunidade e o celebrante a lembrarem o mistério que ali acontece. Com efeito, recorda o Catecismo da Igreja Católica, “a liturgia, pela qual, principalmente no divino sacrifício da Eucaristia, ‘se exerce a obra de nossa redenção’, contribui de modo mais excelente para que os fiéis, em sua vida, exprimam e manifestem aos outros o mistério de Cristo e a genuína natureza da verdadeira Igreja”, (Cf. CIC 1068).

Source: Christo Nihil Praeponere

 

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