Para Vós nasci, Teresa de Jesus

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Para Vós Nasci
“Vossa sou, Para Vós nasci, Que quereis fazer de mim?”
Proposta para a celebração do
V Centenário do Nascimento de Santa Teresa de Jesus (2015

Introdução

1. O poema cujo primeiro verso dá o título a este documento, é a expressão de uma vida que se compreende como dom do amor de Deus e oferta para Ele; essa vida é a de Santa Teresa de Jesus, a nossa Madre. A sua experiência espiritual permitiu-lhe viver as verdades reveladas em alto grau como essenciais na sua própria pessoa (cf. DV 8): em Cristo, o ser humano criado por Deus à sua imagem, é redimido; por Ele, cada pessoa é chamada e esperada; com Ele somos conduzidos à salvação; à sua semelhança a vida do ser humano realiza-se na obediência ao plano do Pai. Essa experiência espiritual da nossa Madre Teresa de Jesus não fica reduzida, sem dúvida, a um acontecimento pessoal que só o incumbiu a ela; é também a raiz do nosso chamamento: “a origem da nossa família no Carmelo e o sentido mais profundo da nossa vocação estão estreitamente vinculados à vida espiritual e ao carisma de Santa Teresa, e sobretudo às graças místicas, sob cujo influxo concebeu ela o propósito de renovar a Ordem, orientando-a para a oração e contemplação das coisas divinas, submetendo-a fielmente ao Evangelho e à Regra «primitiva»” (Const. 5).

2. Sabemos, pois, que a “nossa maneira de viver resplandece perfeitamente na pessoa dos dois Santos (Santa Teresa e São João da Cruz) e se expressa e configura nos seus escritos, de modo que os carismas que eles gozam e o gênero da vida espiritual que nos propõem, até no que se refere ao trato mais íntimo com Deus e às experiências das realidades divinas, não devem considerar-se estritamente pessoais, mas como pertencentes ao patrimônio e à plenitude da vocação da nossa Ordem” (Const.13). Por isso, dentro do movimento do retorno às fontes, que se está produzindo no pensamento e na vivência da fé cristã, que a Ordem tratou de impulsionar nos últimos documentos capitulares, queremos voltar neste XC Capítulo Geral (2009) às fontes do nosso carisma teresiano, mediante uma proposta de leitura programada, pessoal e comunitária, dos escritos de Santa Teresa, que nos ajude a alcançar uma renovada consciência da nossa identidade e missão na Igreja de hoje.

3. Exortamos a esta leitura, além disso, é o início da preparação do V Centenário do nascimento de Santa Teresa de Jesus (2015), de modo que o contacto direto com os escritos da Santa e a leitura sapiencial dos mesmos nos permite entrar na aventura humana e espiritual por ela vivida e proposta. Queremos reavivar o seu espírito em nós, impregnarmo-nos da sabedoria que brota dos seus escritos, abeirarmo-nos deles numa atitude de escuta, como discípulos e como filhos, para dar assim um novo impulso à nossa vida conforme o nosso carisma teresiano ao serviço da Igreja e do mundo. Buscamos a sua palavra como fonte de esperança na nossa experiência humana, cristã e carmelitana.

4. O nosso convite, atenta a chamada para perscrutar os sinais dos tempos que são sinais de Deus (cf. EN 37), se faz ao nível da percepção de uma chamada à espiritualidade e um renovado interesse pelos místicos no nosso mundo, que está pedindo uma espiritualidade dinâmica e profunda, de enraizamento evangélico e de dimensões místicas, capazes de enfrentar a insegurança e as incertezas das nossas circunstâncias atuais. “ Não é um ‘sinal dos tempos’ o que hoje, apesar dos vastos processos de secularização, se detêm uma difusa exigência de espiritualidade, que em grande parte se manifesta precisamente numa renovada necessidade de orar?” (NMI 33ª). Esta “difusa necessidade de orar” dos tempos modernos aparece vinculada à grande tradição mística cristã e, concretamente, ao testemunho dos místicos do Carmelo: “Como não recordar aqui, entre tantos testemunhos esplêndidos, a doutrina de São João da Cruz e de Santa Teresa de Jesus?” (ib., 33b).

5. O documento, fruto da reflexão dos Carmelitas Descalços no XC Capítulo Geral, dirige-se principalmente aos frades e quer ser também um convite às Carmelitas Descalças e à OCDS, mas está aberto a toda a família teresiana. Tem, pois, a pretensão de contribuir para reafirmar os laços de unidade entre irmãos e irmãs, a fim de encarnar e expressar, assim, a riqueza do carisma de Santa Teresa na Igreja. Sabemos que a família fundada pela Santa é uma família aberta, que se foi enriquecendo, ao longo da história, com novos Membros, novas Associações, novos Institutos. Tão pouco podemos esquecer as jovens vocações ao Carmelo, fonte da regeneração carmelitana, como os filhos são fonte de regeneração familiar. De maneira particular, queremos fraternalmente convidar as nossas Irmãs Carmelitas Descalças a fazer connosco esta caminhada espiritual até à celebração do Centenário. Unidos a elas e a toda a família do Carmelo, queremos levar o facho do carisma teresiano, centrando a nossa primordial atenção no valor da oração no coração da Igreja e a força apostólica do dom generoso de nós mesmos.

Primeira parte. As raízes teresianas do carisma: contexto vital e chaves de leitura

I. O marco histórico, sócio-cultural e religioso da sua vida

6. O envolvimento social de Santa Teresa é o de Castela do século XVI, uma época de grandes contrastes, dominada pela classe alta, onde abundavam os convencionalismos, os títulos e tratamentos (cf. V 37, 6.10). Teresa, inevitavelmente está envolvida no sistema de classes sociais da época, reage criticando no Livro da Vida os três grandes pseudo valores daquela sociedade: o culto da honra o afã dos dinheiros e a busca dos deleites (cf. V 20, 25-28). Santa Teresa nasce e cresce no período da expansão imperial de Carlos I de Espanha e V da Alemanha (1516-1556), e desenvolve a sua atividade e personalidade no reinado de Filipe II (1556- 1598). Neste tempo Castela deixa de ser uma região fechada sobre si mesma para se abrir ao horizonte europeu de Itália, França e Flandres.

7. Teresa, trás no mais fundo da sua alma a preocupação dos problemas da Europa, submersa em guerras por causa da divisão religiosa e debaixo da observação do Império Otomano, e por África. Mas sobretudo mostra uma sensibilidade especial para o vastíssimo panorama da América e dos seus problemas. Tinha Teresa apenas 17 anos quando começou o êxodo dos seus irmãos para a América (as Índias, no léxico de Teresa). A partir desse momento nunca mais deixou de olhar para o continente americano. Durante as duas últimas décadas da sua vida, os assuntos das Índias fizeram parte da sua paisagem interior e converteram-se em fator determinante da extensão da sua obra fundadora entre os frades. De Teresa e da sua atividade diante das Índias pode repetir-se o caso dos dinheiros que lhe chegam. Ela, sem dúvida, viveu o problema da América a um nível mais profundo e sofreu com respeito a ele uma evolução radical. Teve sempre informação em primeira mão. Contudo, o empurrão definitivo dá-se quando passou em 1565 pelo Carmelo de São José o missionário franciscano Alonso de Maldonado, discípulo e seguidor do P. Las Casas, oposto à empresa dos conquistadores, e favorável aos missionários. Ouvindo-o, Teresa fica profundamente sensibilizada e não pôde fazer outra coisa que não fosse retirar-se a sós para uma ermida na cerca e pedir a Deus por tantos milhares de almas que por ali se perdem. De repente faz-se luz e um horizonte imenso surge com um perfil totalmente novo (cf. F 1,7; Carta a Lorenzo de Cepeda, 17 Janeiro de 1570).

8. A mulher, na sociedade espanhola do século XVI, não tem um grande protagonismo nem um importante poder de decisão. Com difícil acesso às fontes da cultura, não é admitida na universidade, nem se abrem outros centros de estudo ou de promoção; tão pouco lhe é permitido a leitura de livros espirituais em romance. Teresa protestará contra estas proibições, que se dão também no interior da Igreja: “Não basta, Senhor, que nos tenha o mundo encurraladas e incapazes de fazer alguma coisa que valha por Vós em público nem ousemos falar algumas verdades que choramos em silêncio, senão que não nos ouvis nesta petição tão justa? Não o creio eu, Senhor, da Vossa bondade e justiça, sois justo juiz, não como os juízes do mundo, que são filhos de Adão e, por fim todos os varões, não há virtude de mulher que não a tenham como suspeita” (CE 4,1; cf. 35,2; V 26,6). Ela, sem o pretender, torna-se uma impulsionadora de um movimento de cultura feminina. Lida com a literatura espiritual espanhola da primeira metade do século XVI. Ao fundar o novo Carmelo, exige que as suas monjas saibam rezar o ofício divino e ajudar no coro (cf. Cst 6). Mas, pouco depois, chega às portas do seu Carmelo uma pastorinha analfabeta de Almendral, Ana Garcia (Ana de São Bartolomeu), Teresa esquece o seu critério e admite-a. Ela mesmo a ensina a ler e escrever. No novo Carmelo Teresa será amiga dos livros, das letras e letrados, de estrofes e… das canções de Frei João da Cruz. E após ela seguirá, nos fins do século e princípios do século XVII, todo um cortejo de carmelitas letradas, entre as quais se destacam Maria de São José, Cecília do Nascimento e Ana da Trindade (calagurritana).

9. No que respeita o envolvimento religioso, Castela é uma sociedade teocrática e quase uniformemente católica: expulsos os judeus de Espanha em 1492 e investigados todos aqueles que, por serem descendentes de judeus conversos acarretam com a suspeita de perseverar nas antigas crenças, perseguido qualquer contacto com a Reforma protestante, só ficam alguns núcleos muito reduzidos de muçulmanos (mouros). Teresa, desde menina, aludirá à hostil terra de mouros e ao possível martírio aí (cf. V 1.5) e ela mesma e a sua família tiveram que iludir as desconfianças acerca da limpeza do seu sangue, quer dizer, da sua ascendência judia. São conhecidas as suas opiniões sobre a Reforma, aquelas que recebia no seu ambiente político-religioso (cf. C 1,2).

10. A sociedade espanhola do século do ouro era ostensivamente religiosa nas suas estruturas, nos seus costumes e sentimentos. Daí que a religiosidade popular se convertera em fator de formação envolvente; está presente a todos os níveis. De menina, Teresa a respira em família. Logo a vive com modalidades diferentes ao longo da sua vida religiosa, em concordância com a liturgia conventual. E, por fim, a incorpora, já muito purificada, na sua vida mística. O mais relevante é esta conjugação da religiosidade popular com a experiência mística: Teresa experimenta no dia a dia a ‘imensa formosura do rosto de Cristo’, vive um profundo sentimento de comunhão com a Trindade, etc., e não obstante na prática quotidiana e comunitária são quase indispensável as imagens (cf. C 34,11), a água benta, as procissões, as estrofes cantadas. A Inquisição, na Igreja e na sociedade espanhola daquele século, foi uma das instituições mais condicionantes. Também na vida de Teresa. As intervenções inquisitoriais questionam tanto a sua pessoa, as suas graças místicas (cf. V 33,5), como o primeiro de seus escritos, o Livro da Vida. Ela, sem dúvida, não sucumbe ao ambiente de medo inquisitorial que se respira em Castela.

11. Para Teresa, a Igreja, e a mentalidade da época de Filipe II, era o clero e a hierarquia. O clero é a classe social mais próxima de Teresa e também a mais determinante para uma religiosa como ela. Está em contacto com os diversos estratos do quadro eclesiástico. Tem uma alta estima dos bispos por ela conhecidos, mas sobretudo uma cotação positiva do clero. O sacerdote, para ela, não é um empregado de ofício, mas um porta-bandeira, uma espécie de capitão dos cristãos. É um defensor da causa de Cristo (cf. C 3,1-2). Na história da Igreja, Teresa inscreve-se, nas correntes reformistas castelhanas, no movimento da reforma católica que arranca em meados do século XVI e é liderado, de forma especial, pelo Concílio de Trento; o dito movimento procurou injectar na Igreja um espírito novo, que alentasse a vida cristã, as artes, a teologia e os seminários.

12. A vida mística de Teresa e o seu desejo de uma pequena comunidade contemplativa com um novo espírito e estilo são anteriores ao Concílio de Trento, se bem que depois coincidem com a celebração e execução do mesmo, a que ela chama com frequência o santo Concílio. Mas ela não é mais uma reformadora da vida religiosa, senão a portadora de um carisma e a inspiradora de um estilo de vida na Igreja, caracterizado pelo seu humanismo cristão. Aberta à transcendência que é comunhão de amor trinitário e amizade com Cristo, Deus e homem que compreende as nossas debilidades, Santa Teresa tem em alta consideração a pessoa e valoriza as virtudes humanas (cf. C 4,4; 41,7; 1M 1, 1ss). O seu é, além disso, um misticismo profético, uma experiência tão poderosa que se expressa numa palavra que nos convida, inspira e interpela e é, assim, um testemunho social e eclesial.

13. Com clareza e concretização, Santa Teresa descreve, em poucas palavras, o valor da formação cristã que recebeu na sua família: “o ter pais virtuosos e tementes a Deus me bastara, se eu não fora tão ruim, com o que o Senhor me favorecia para ser boa” (V 1,2). O quadro esboçado por Teresa ao trazer algumas notas biográficas da sua família nas páginas iniciais do Livro da Vida é nitidamente positivo, bem caracterizado, impregnado de são humanismo cristão. O perfil de dom Alonso, seu pai, é o de um homem recto, amigo da verdade, sem excessos, socialmente bem orientado, afeito à leitura, interessada na Eucaristia, de muita caridade com os pobres e piedade com os doentes e com os criados (cf. ib.,2). Muito similar é o perfil feminino de D. Beatriz, sua mãe: sacrificada, recatada, muito aprazível e de grande entendimento, propensa a cultivar a piedade mariana nos filhos e outras virtudes cristãs (cf. ib.,3).
Ela, que tão assídua e intensamente exerceu a sua missão de Mãe de espirituais, dentro e fora dos Carmelos, cuidou também deste aspecto da vida familiar. Primeiro como monja, interessada pela vida espiritual de seu pai (cf. ib. 7,13); a seguir como mística, interessada na vida espiritual de seus irmãos.

14. Com este pano de fundo, Teresa vai viver o seu processo vocacional entre as 18 e os 20 anos de idade, momento em que ingressa no mosteiro das carmelitas da Encarnação. Ali, tomou consciência de se ter unido a uma tradição espiritual de enraizamento secular, de inspiração bíblica intensa e alicerçada na Regra. A Regra do Carmelo é, depois da Bíblia, mais vezes citado pela Santa. Redigida na primeira década do século XIII, foi logo retocada e aprovada no Pontificado de Inocêncio IV (1247), e é este último texto designado por Teresa como Regra primeira ou Regra primitiva (cf. V 36,26). Nas primeiras páginas do Caminho, dirá às suas monjas que ao fundar o cantinho de São José “pretendi que se guardasse esta Regra de Nossa Senhora e Imperatriz com a perfeição com que se começou” (C 3,5). As propostas vindas da Regra que assimila com maior intensidade são: a pobreza evangélica (cf. V 35), a oração (cf. C 4,4), a solidão da cela (cf. Cst 8; C 4,9), o silêncio (cf. 3M 2,13), o trabalho e a exemplaridade de São Paulo, assim como a tradicional relação da Regra com o modelo da Virgem, motivo pelo qual Teresa a designa normalmente como Regra da Virgem, Regra de Nossa Senhora do Carmo…(cf. F 14,5; V 36,26).

15. Durante os 27 anos de estância na Encarnação, Teresa vai experimentar um profundo crescimento espiritual: a leitura de Santo Agostinho e o olhar um Cristo muito chagado deram uma volta definitiva à sua vida religiosa (cf. V 9, 1.8). Na Encarnação aconteceram-lhe as graças místicas a que ela se refere no Livro da Vida, desde as experiências cristológicas, que centrará a sua vida mística na vivência da santa humanidade de Cristo (cf. V 22), passando pela graça do dardo (cf. V 29,13), até às graças carismáticas que a impulsionaram a fundar um novo Convento. Ali sucedeu o feito decisivo que ia mudar o rumo da sua vida, em 1554, depois de quase 20 anos de vida carmelitana. Refere-o no capítulo 9 do seu relato autobiográfico. Consiste, não já na superação da luta sustentada nos dez anos precedentes, senão na abertura de horizonte até um novo modo de se relacionar com Deus e de enfrentar a vida de cada dia. Descreve-o assim: “Tinha eu algumas vezes começado o que agora direi: acontecia, nesta representação, que me punha junto de Cristo, e até algumas vezes lendo, vir-me inesperadamente um sentimento de presença de Deus, que de nenhuma maneira podia duvidar que estivesse (Ele) dentro de mim ou eu toda engolfada n’Ele” (V 10,1). Era sensivelmente o começo da vida mística; O início de uma nova maneira de orar e de viver, de consequências imprevisíveis para ela mesma. É a sua experiência de vida nova, que dará origem ao novo Carmelo. Começa assim a segunda época da sua vida
(1554-1582), marcada por fortes experiências místicas, das quais será testemunha João da Cruz, confessor na Encarnação durante o triênio (1571-1574), em que Teresa foi prioresa. Uma etapa marcada pela sua intensa atividade como escritora e fundadora, da que participou igualmente a João da Cruz e que prolongará, praticamente, até à sua morte.

II. Chaves para a leitura dos seus escritos

16. As obras de Teresa de Jesus são fundamentalmente relatos das suas experiências místicas. Estas serão a paisagem de fundo dos seus primeiros escritos: as especiais graças cristológicas (cf. V 26-27; 37,4) e graças antropológicas que lhe outorgam uma nova compreensão de si mesma ou do que se passa na alma (cf. ib. 40,9). Estas experiências têm um determinado carácter dinâmico: desde a contemplação que se vê pressionada a fundar um Carmelo e a escrever (cf. ib., prol., 2; 37,1). Para se decidir a escrever o primeiro dos seus livros, Vida (1562 e 1565), recebe a ordem de seus assessores, muito envolvidos nas suas experiências místicas, mas por sua vez ela mesma se diz movida por um desses impulsos interiores (cf. ib. 18,8; 19,3-4). O Caminho (1566) escreve-o pela insistência do grupo recém fundado de São José que sabe das suas graças místicas e, de certo modo, quer estar em sintonia experiencial com a Madre. Cinco ou seis anos depois (1573) empreende a redação do Livro das Fundações. Prossegue assim o relato começado em V 32-36, porque o ordenou o seu confessor P. Ripalda, mas interveio também o impulso místico (cf. F prol.; CC 6,2). Por fim em 1577 compõe as Moradas. O mesmo que o das Fundações, também este livro se sobrepõe à Vida, não no relato narrativo (V 32-36), mas no místico (ib. 22-31; 37-40). Escreve-o para completar o panorama das experiências interiores, de maneira que sirvam como paradigma do processo de toda a vida espiritual cristã.

17. Enraizada na Bíblia, na Palavra de Deus e nos mistérios que celebra a liturgia, Teresa converte-se numa extraordinária indutora da experiência de Deus, que ela mesmo experimentou. Santa Teresa, pois, escreve a partir da experiência (cf. V 18; ib. 23; C prol.) e para despertar a experiência em seus leitores: “do que não temos experiência não podemos fazer um juízo certo” (6M 9; cf. C28). Daí o seu interesse não só por explicar e dar a conhecer, mas sobretudo por estimular o leitor a fim de o animar a percorrer o mesmo caminho que ela está a fazer. A experiência de Deus por graça (1544-1554), a experiência da pessoa de Jesus Cristo (1 560) e a experiência do mistério trinitário (1 571), são os núcleos centrais, à volta dos quais gira a espiritualidade teresiana.

18. Teresa aceita a Bíblia como supremo critério de verdade e fonte da sua vida de oração (cf. MC, prol.,2). À parte da impregnação bíblica que a levava à pregação, a oração litúrgica, etc., pôde ler o texto de três livros sagrados, dentro de outros escritos espirituais: o Flos Sanctorum, que lhe oferece todo o texto da Paixão segundo os quatro evangelhos; o texto bíblico do Livro de Job, difuso ao longo do Morales de São Gregório: os textos bíblicos referentes à história ou ao mistério de Jesus, no comentário da Vita Christi por o Cartujano. Há que destacar também a importante presença da Bíblia nos seus escritos: Cântico dos Cânticos, Evangelho, São Paulo, figuras bíblicas… De tudo isto deduz-se que Teresa tinha uma boa sensibilidade bíblica, e uma alta valorização da Escritura: “todo o mal que vem ao mundo é por não se conhecer a Escritura com clara verdade” (V 40,1). Aprecia o saber dos teólogos enquanto deriva do texto sagrado: “na Sagrada Escritura que estudam, sempre encontram a verdade do bom espírito” (ib. 13,18; 34,11).

19. Por outra parte, Teresa se iniciou na vida litúrgica na Encarnação, onde se juntou a uma comunidade contemplativa que dava grande importância à oração litúrgica e dispunha de um bom grupo de monjas para a solenizar. A oração era a ocupação principal, e à volta dela giravam todos os afazeres comuns. Sem dúvida, progredirá no espírito litúrgico sobretudo ao avançar na experiência mística. Ela mesma aprofundará o mistério da oração eclesial, tanto na Liturgia das Horas como, sobretudo, no grande mistério da celebração eucarística (cf. 6M 7,4; C 33-35), que são os grandes pilares da vida espiritual. As graças místicas, mais intensas, recebê-las-á no contexto eucarístico.

20. Em todos os seus livros é ponto central a oração, compreendida e vivida como amizade pessoal com o Senhor e a Santíssima Trindade e como entrega incondicional a Ele. A oração é a porta que abre à pessoa humana o espaço de intimidade no qual se quer encontrar com Deus, presente no mais profundo da alma: “só digo que, para estas graças tão grandes que a mim me tem feito, a porta é a oração; fechada esta , não sei como as fará” (V 8,9; cf. 1M 1,7). È também o lugar onde se revela a Verdade, as verdades (cf. V 19,12; F 10,13). Santa Teresa compreende a oração, antes de tudo, como fiel e paciente atitude de amizade com o Senhor: com frequência fala de ter tido que se acostumar a procurar a compainha d’Aquele que nos acompanha sempre (cf. C26-29). Para ela oração “não é outra coisa…, senão tratar de amizade, estando muitas vezes a sós com quem sabemos que nos ama” (V 8,5).Assim, cantará no poema: Para Vos nasci: “Se quereis, dai-me oração,/ se não, dai-me estiagem(…). Soberana Majestade,/ só encontro paz aqui:/ que quereis, Senhor de mim? Isso é o essencial e importa mais que a possibilidade de alcançar determinadas experiências contemplativas; os tempos que se empregam na oração, “seja quão frouxamente quiserdes, os tem Deus em muito” (2M 1,3).

21. Teresa passa a sua própria experiência para o Carmelo renovado com uma dupla orientação. Por um lado fixa o seu olhar nas origens: afirma insistentemente a sua vontade de voltar à velha tradição espiritual carmelitana, o regresso à Regra primitiva, o duplo modelo da Virgem Maria e do profeta Elias, a vida ermitana dos antigos habitantes da Montanha bíblica (cf. Const. 9). Por outro lado, projeta um sentido de atualização e novidade: expressa vontade de inserção na Igreja do seu tempo e transvaza a própria experiência religiosa ou espiritual ao grupo de seguidoras e seguidores; a Madre Teresa ensina a novidade de uma vida contemplativa com finalidade apostólica, missionária e eclesial (cf. F 1,7; C 1,2; Const. 6-7. 89.94), vivida no pequeno grupo de Cristo onde todas se amem e ajudem (cf. C 4,7; 27,6). O fundamento da nova vida, que abarca ambas as orientações e integra a primeira na segunda é a sua intensa experiência de Deus e de Cristo, que abrange, a partir dela, todos os que a seguem: “ é certo, porém, que com o tempo cresciam os meus desejos de contribuir para o bem de alguma alma e muitas vezes sentia-me como alguém que tem um grande tesouro e deseja dá-lo a gozar a toda a gente e lhe atam as mãos para não poder distribui-lo”. (F 1,6).

22. Não podemos esquecer outro dos componentes essenciais do seu ideal, tirado das suas Constituições, que podíamos designar como humanismo teresiano na vida religiosa: alta valorização da pessoa, duas horas de recreio por dia, em paralelo com as duas horas de oração mental (Cst 26-28), etc. Já em Caminho insistiu nas virtudes humanas: quanto mais santas mais vos conservais irmãs (cf. C 41,7; Const. 10), inter comunhão de pessoas e de comunidades, prescrição do trabalho pessoal, leitura de livros selecionados, discernimento das vocações, exercício da autoridade por amor… Estas linhas mestras Teresa pensou-as e traçou-as para os Carmelos das suas monjas. Passa aos descalços o feito através de Frei João da Cruz, a quem propõe o estilo de mortificação, irmandade e recreação vigente nas monjas (cf. F 13,5). Assim, a Madre Teresa e João da Cruz encarnaram para sempre o ideal carismático teresiano entre os frades (cf. Const. 11-14).

Segunda parte. Fazer uma leitura atualizada dos seus escritos

I. Aproximação ao nosso contexto a partir da experiência de Teresa

23. O carisma que brota da vida e dos escritos da Madre Teresa, expandiram-se e enriqueceram-se ao longo dos séculos, graças a um melhor conhecimento das suas obras e da sua experiência carismática, presente nas Constituições, tanto dos frades como das monjas e da Ordem secular. Graças a esta renovada tomada de consciência, “hoje temos um conhecimento do nosso carisma, podemos tê-lo como possivelmente nunca na nossa história. Hoje, mais que nunca, os nossos santos, a espiritualidade que identifica a nossa família, são reclamados dentro e fora da Igreja, pelos mais variados leitores, que exigem que lhes participe esta riqueza (…). Com tudo, temos que nos perguntar como podemos responder às exigências dos séculos e dos tempos na Igreja e no mundo às grandes e legítimas aspirações, humanas e religiosas das novas gerações, para que possam cumprir de maneira mais eficaz e atualizada a missão do Carmelo teresiano no terceiro milênio  (No caminho com Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz. Voltar ao essencial, 2003, 1). Por outras palavras, “é necessário, por isso, conhecer e compreender o mundo em que vivemos, as suas esperanças, as suas aspirações e o rumo dramático que com frequência o caracteriza” (cf. GS 4; ib.6); e reter que a razão mais alta da dignidade humana é a vocação da pessoa à união com Deus (cf. GS 19). O carisma teresiano, como fica dito, consolidou-se numa forte experiência mística de oração, chegando ao seu pleno desenvolvimento à luz dos acontecimentos culturais e religiosos da sua época, aos que a Santa Teresa trata de dar uma resposta a partir da sua própria vivência, narrada nos seus escritos, e com a sua obra fundacional. É a mística encarnada na realidade histórica, sensível aos acontecimentos e comprometida no serviço.

24. A atitude da Madre Teresa pede-nos uma consciência e um discernimento de quanto acontece ao nosso redor, num mundo marcada pela secularização e pela pós modernidade, pelo ateísmo e pela descrença, sobretudo deste Ocidente, como cultura globalizadora que vai impregnando outras realidades geográficas. Sem dúvida, paradoxalmente, são cada vez mais os sintomas de um novo despertar religioso e de busca de uma espiritualidade, que responde às inquietações mais profundas do ser humano. Adverte-se a necessidade da mística, da recuperação da experiência da fé, para que o século XXI possa continuar cristão. Ao tempo, detectamos uma crise de identidade do homem mesmo, ao que se pretende definir sem referência alguma a Deus, o que atenta contra a sua dignidade e contra os valores transcendentais inscritos no ser humano, pois o homem é um eu aberto, como por uma ferida, pela paixão de transcendência. A espiritualidade teresiana, centrada no homem morada de Deus, aberta à comunicação com Ele, capaz de o acolher no mais íntimo do Castelo, ajuda-nos a tomar consciência da sua dignidade, ameaçada pela cultura atual. Por isso educar o homem na atitude contemplativa teresiana é ajudá-lo a descobrir a sua verdadeira identidade.

25. Juntamente com a crise do homem e o facto da descrença, cabe referir uma situação de injustiça, pobreza e exclusão. Também esta situação tem que ver com a revelação de Deus e a possibilidade de uma resposta humana a ela, iluminada pela experiência teresiana, Uma espiritualidade cristã que quer assumir os desafios do século XXI deverá necessariamente enfrentar-se com o facto da pobreza. A preocupação pelos pobres é algo claramente presente nas fontes da mesma revelação cristã. A experiência de Deus não pode realizar-se no alheamento, na indiferença, na falta de atenção face aos sofrimentos dos homens. Uma contemplação que não tenha em conta esta situação lacerante da nossa sociedade é biblicamente detestável, como é o culto a Deus que ignora o sofrimento do pobre e desvalido, denunciado pelos profetas.

26. Um dos sinais da vida religiosa e do cristianismo atual é a sua solidez existencialmente evangélica; é o que o Vaticano II denominou retorno constante às fontes de toda a vida cristã no seguimento de Cristo como norma suprema de vida evangélica (cf. PC 2), seguindo o carisma dos fundadores como fruto do Espírito Santo que atua sempre na Igreja. Todo o carisma, como experiência do Espírito, representa uma leitura renovada do Evangelho, uma nova espiritualidade que a explicita, aberta no tempo para ser aprofundada e desenvolvida constantemente pelos dons particulares de quem participa dela (cf. MR 11). Cristo é o Evangelho em pessoa, centro e norma última de toda a vida consagrada, origem e meta de todo o carisma. O carisma teresiano representa uma maneira original de ler o Evangelho, de contemplar a Cristo e de configurar-se com Ele num aspecto do seu mistério.

27. A originalidade de Teresa, o seu carisma na Igreja, vem-lhe precisamente da sua configuração com Cristo num conhecimento feito de experiência, quer dizer, da sua experiência mística e cristocêntrica (cf. V 9,1-3; 26,6; 27, 2-8, etc.). Neste sentido, o seu carisma é um carisma autêntico e de genuína novidade na vida espiritual da Igreja (cf. MR 12). A sua novidade é o êxito que supõe um avanço qualitativo na espiritualidade cristã, e se explica justamente pela proposta de uma nova maneira de viver o Evangelho que respondia às inquietações do seu tempo e, em certo sentido, às necessidades de todos os tempos. Por isso se explica também a ampla difusão dos seus escritos, que são uma iniciação à experiência cristã. Daí, a incumbência do Carmelo descalço hoje: viver intensamente o carisma teresiano, iniciar o ser humano de hoje na experiência contemplativa teresiana, à luz dos sinais dos tempos, e trabalhar na difusão das suas obras.

II. Alguns núcleos vitais da experiência e doutrina teresianas

28. Em sintonia com a sensibilidade religiosa e a vivência da fé cristã hoje, a experiência de Teresa é eminentemente pessoal e cristocêntrica. Realiza-se toda ela na mediação insubstituível de Jesus Cristo: “ Vi claramente que por esta porta temos de entrar se queremos que a soberana Majestade nos mostre grandes segredos” (V 22,6). O essencial da mística teresiana é uma percepção da humanidade glorificada de Cristo como sustento que nos sustenta e a vida da nossa vida (cf. 7M 2,6), desde a sua conversão (cf. V 9,1) até à descoberta de Cristo como livro vivo onde se vêem verdades e que “deixa impresso o que se há-de ler e fazê-lo de maneira que não se possa esquecer” (V 26, 6).

29. Se Cristo é o fundamento e conteúdo da mística teresiana, a experiência teologal da oração é a característica mais peculiar do carisma teresiano, o que explica o sentido do novo Carmelo e a função magistral de seus escritos; a que, como recordou Paulo VI na declaração oficial do Doutorado, “ Levou a cabo na sua família religiosa, na Igreja e no mundo, perante a sua mensagem perene e atual: a mensagem da oração”. E é que o seu redescobrimento da contemplação abrangeu a proposta de formas concretas, de um exercício acessível a toda a classe dos cristãos (cf. C 19, 15; 23,5), a instauração de uma nova pedagogia mediante o ensinamento de caminhos de iniciação e métodos para o seu desenvolvimento. Graças à pedagogia dos seus escritos, o carisma teresiano da contemplação converteu-se numa evidência no seio da Igreja, até ao ponto de não se poder pensar na realização da vida cristã sem a vivência desta dimensão teologal e incluso da vivência mística. Neste contexto há que ler o importante texto do Catecismo da Igreja Católica sobre a mística como plenitude da vida cristã, entendida como união cada vez mais íntima com Cristo (cf. CICat 2 014), e sobre a pedagogia da contemplação (cf. ib. 2 709-2 719).

30. O carisma teresiano, a sua experiência mística de Cristo, o ideal contemplativo ao serviço da Igreja, se encarnam visivelmente no que Teresa apresentará, mais tarde, como o nosso estilo de mortificação, irmandade e recreação (cf. F 13,5). Um ideal de vida comunitária configurado com estes três factores: uma comunidade que é antes de mais o “colégio de Cristo” (CE 20,11), conforme o modelo da Igreja primitiva mais radical, pois Ele está presente no meio da comunidade (cf. V 32, 11), é “o Senhor da casa” (C 17,7), o que “nos juntou aqui” (C 1,5; 3,1); uma comunidade sob as exigências da estrita igualdade e do amor verdadeiro (cf. C 4,7; 7,9) e é onde tudo é presidido por um estilo evangélico de amor efetivo, gratuito, desinteressado (C 4,11; 6-7; 5M 3,7-12), com o trabalho manual por norma (cf. Cst 28); uma comunidade humanista, com notas tão peculiares e insólitas para o seu tempo: a cultura, as virtudes humanas, a suavidade, prudência e discrição; a simplicidade, a afabilidade e a alegria (cf. C 41, 7-8; VC 42; NMI 43).

31. O projeto fundamental do Carmelo tem uma clara matriz mariana (cf. V 33,14). Por isso, Teresa de Jesus, que experimenta prematuramente na sua vida o poder intercessor de Maria (cf. V 1,7), propõe a Virgem Santíssima como Mãe e Senhora da Ordem (cf. F 29,23; 3M 1,3), como modelo de oração e abnegação para o caminho da fé (cf. 6M 7,13-14), como mulher entregue de alma e corpo à escuta e contemplação da palavra do Senhor (cf. MC 5,2; 6,7) sempre dócil aos impulsos do Espírito Santo e associada ao mistério pascal de Cristo por amor, e dor e gozo (cf. 7M 4,5). Daí que a comunhão com Maria penetre e marque com um selo mariano todos os elementos da nossa vida: a vida fraterna, o espírito de oração e contemplação, o apostolado em todas as modalidades e a mesma abnegação evangélica (cf. Const. 47-52). A figura evangélica da Virgem, além de ser modelo para a nossa vida, estimula-nos a seguir os seus passos, convidando-nos para que, como verdadeiros pobres de Javé, “configuremos a nossa vida à de Nossa Senhora pela contínua meditação da Palavra divina em fé e na multíplice doação de amor” Const. 49). Pela mão de Maria entremos no mistério de Cristo e da Igreja e nos façamos portadores, como ela, de Jesus e da Boa Nova do seu Reino. Por isso a dimensão mariana é, sem dúvida, juntamente com a dimensão cristocêntrica, uma das chaves fundamentais da leitura teresiana. E junto a Maria, São José como humilde servidor de Cristo e sua Mãe, exemplo vivo de comunhão orante com Jesus (cf. Const.52).

Terceira parte. Critérios para um plano de leituras teresianas e propostas operativas

I. Critérios para um plano de leituras teresianas

32. O primeiro critério leva-nos à própria experiência espiritual da Madre Teresa. A partir da sua conversão realizou, fundada na oração, uma experiência de encontro, cada vez mais profunda, com a pessoa de Cristo, em quem crê, a quem ama e espera. Por sua mão penetrou na vida da Santíssima Trindade e por Ele se entregou ao serviço eclesial por meio do exercício da contemplação apostólica e missionária. Assim, a nossa leitura deve situar-nos em Cristo, levar-nos a contemplar o seu rosto, convidar-nos a configurarmo-nos com Ele para anunciá-l’O como Palavra, sendo testemunhas do seu amor.

33. Em segundo lugar, tendo em conta a força da Palavra de Deus e da Sagrada Escritura na experiência teresiana e coincidindo com a revalorização da Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja (cf. Sínodo dos Bispos, Outubro 2008), cabe propor uma nova leitura numa perspectiva bíblica, que na chave teresiana está também muito unida à liturgia, “fonte e cume da vida espiritual”(SC 14).

34. Em terceiro lugar, partindo da singular experiência que tem Teresa da Igreja, se pode propor outra chave de leitura das suas obras, tendo em conta as necessidades da Igreja hoje e tratando de dar uma resposta, no campo da espiritualidade e da evangelização, a partir destas três coordenadas da eclesiologia pós conciliar que foram tiradas de: Vida Consagrada, consagração, comunhão e missão.

35. As obras de Teresa de Jesus descrevem um estilo de irmandade, particularmente significativo na nossa sociedade modera, marcada pelo individualismo, onde cada vez devem ser mais fortes os sinais de comunhão, que anunciem a fraternidade universal pela vivência plena da pobreza, da castidade e da obediência: “determinei fazer este ‘pouquito’ que estava em mim, que é seguir os conselhos evangélicos com toda a perfeição que eu pudesse e procurei que estas poucas que estão aqui fizessem o mesmo, confiada na grande bondade de Deus, que nunca falta para ajudar a quem por Ele se determina a deixar tudo”(C 1,2; cf. VC 87).

36. Outro critério para a leitura nos mostram as dimensões apostólica e missionária que sobressaem da vida e a obra da Santa, destacando a sua vivência do mistério pascal, fonte de toda a evangelização, e o serviço apostólico que hoje pede a Igreja à vida consagrada, seguindo a terceira parte da Vida Consagrada.

37. Finalmente, convencidos que as obras da Santa contêm uma mensagem válida para o nosso tempo e para todas as culturas, convidamos a lê-las com o olhar de hoje, com uma nova sensibilidade religiosa e cultural, tendo em conta os distintos contextos culturais e religiosos da Ordem. O marco desta leitura pode ser o desenvolvido no documento do Capítulo Geral (2003): Em caminho com Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz: Voltar ao essencial. 60-64; 74-78.

II. Propostas operativas

38. Ler cada ano na Ordem, desde 15 de Outubro de 2009 até 2014, pessoal e comunitariamente uma obra da Santa Madre Teresa de Jesus, com a ajuda de um guião que uma comissão determinada pelo Definitório elaborará. A leitura comunitária, onde seja possível, completar-se-á com celebrações, semanas de Espiritualidade, congressos interdisciplinares sobre as obras, etc. Em todos os casos, será objecto de uma reunião anual de cada circunscrição para partilhar e avaliar os efeitos do projeto.

39. A ordem da leitura das obras teresianas será a seguinte: Vida (2009-2010), Caminho de Perfeição (2010-2011), Fundações (2011-2012, no 450º aniversário da fundação de São José de Ávila), Moradas (2012-2013) e Relações, Poesias e Cartas (2013-2014).

40. O objectivo que nos propomos, mediante a escuta da palavra de Santa Teresa, é gerar nos indivíduos e comunidades um fortalecimento da nossa vivência cristã em chave bíblica e evangélica, um enriquecimento da nossa vida de fé em comunhão com a Igreja. Como interlocutores atuais de Teresa, devemos constatar que os frutos do contacto com as escrituras contribuem para melhorar a nossa vida como carmelitas teresianos, com uma eficácia análoga à que São Gregório Magno dizia da Escritura, que cresce com o que a lê, em proporção à fé e ao amor do leitor. Por isso a nossa leitura estará movida, mais que por uma preocupação sistemática, pela atenção aquilo que nos escritos de Teresa é relevante para a nossa vida.

41. O Definitório criará uma comissão central, cuja tarefa principal será a elaboração de guiões ou subsídios de animação para cada ano, assim como promover, coordenar e divulgar as iniciativas que surjam nas diversas circunscrições.

42. Ampliar, com o fim de enriquecer, o nosso círculo de leitura, desde os indivíduos e as comunidades até às carmelitas descalças, a OCDS, a família teresiana e os leigos, fomentando em nossas comunidades e áreas de ação pastoral a leitura partilhada das obras de Santa Teresa.

43. Criar uma página Web com o fim de difundir através dela os escritos da Madre Teresa, fomentando assim uma leitura, o mais universal possível, da sua obra, com a ajuda das novas tecnologias.

44. Acrescentar, desde o Definitório geral e mediante a ação coordenada do Convento da “Santa” – casa natal de Santa Teresa – , a Conferência Ibérica de provinciais e CITeS, o potencial de Ávila como centro de acolhimento de peregrinos, particularmente jovens. Deve programar-se aí uma oferta pastoral, difusa por outros lugares significativamente teresianos, que incluam peregrinações, jornadas de formação e oração, etc. Neste sentido, se assumirá o desafio que supõe a celebração da Jornada Internacional da Juventude em Madrid em 2011, como ocasião para difundir a figura e obra de Santa Teresa.

45. Completar esta oferta pastoral, contando com outros centros de formação da Ordem, como o Teresianum, com uma do tipo cultural através de organização de cursos e congressos, encontros e seminários para especialistas, tradutores e estudiosos da Santa, capazes de elaborar propostas concretas a realizar nas diferentes circunscrições e nos centros de estudo da Teologia espiritual, etc.

46. Celebrar, ao menos uma vez no próximo sexênio  um Definitório extraordinário entre cujos temas de trabalho se inclua uma avaliação da eficácia deste plano de leitura.

47. Fixar um textus receptus dos escritos de santa Teresa, assim como um modus operandi para incorporação de novos achados, especialmente no que diz respeito às cartas e outros fragmentos que podem descobrir-se, para que se unifique o modo das citações no texto original e nas traduções. O Definitório deverá empreender e culminar quanto antes esta tarefa, após dialogar com peritos e casas editoras.

48. Fomentar pelo Definitório a edição em formatos populares e econômicos das obras da Santa Teresa em diversas línguas.

Conclusão

49. Cimentados na experiência de Deus vivo, quem, ao criar-nos à sua imagem e semelhança, pôs no interior de cada pessoa a sua morada, queremos renovar a nossa consciência carismática ao serviço da Igreja e da humanidade de hoje com a leitura programada dos escritos de Teresa de Jesus. Desejamos reviver e partilhar os valores teresianos: o seu sentido de Deus e da pessoa, o seu espírito de oração e a sua abertura aos acontecimentos do nosso mundo, a sua responsabilidade eclesial e o seu espírito apostólico. Queremos, por fim, subir com ela à beleza das “almas com que tanto se deleita o Senhor” (7M 1,1), começando por uma renovada consciência da dignidade de cada um de nós. Desta maneira, teremos também uma percepção positiva e esperançada do ser humano do nosso tempo e uma postura criativa, tanto na construção do Reino de Jesus Cristo como no anúncio de um novo céu e de uma nova terra. “A grandeza de Deus não tem fim, tão pouco o terão as suas obras” (ib.). Não deixa de operar e continua a ser o Senhor da história. Por isso, a nossa proposta teresiana quer ser a grande oferta, para os homens e mulheres do século XXI sejam também místicos, pessoas que experimentem a Deus, que descobriram o sentido da sua vida e querem comunicá-lo aos seus contemporâneos.

ORAÇÃO A SANTA TERESA DE JESUS

Santa Teresa de Jesus!
tu te puseste totalmente ao serviço do amor:
ensina-nos a caminhar com determinação e fidelidade
no caminho da oração interior
com a atenção posta no Senhor Deus Trindade
sempre presente no mais íntimo do nosso ser.

Fortalece em nós o fundamento
da verdadeira humildade,
de um renovado desprendimento,
do amor fraterno incondicional,
na escola de Maria, nossa Mãe.

Comunica-nos o teu ardente amor apostólico à Igreja.
Que Jesus seja a nossa alegria,
nossa esperança e nosso dinamismo,
fonte inesgotável
da mais profunda intimidade.

Abençoa a nossa grande família carmelitana,
ensina-nos a orar de todo o coração contigo:
«Vossa sou, Senhor, para Vós nasci
Que quereis de mim?» Amém.

L.D.V.M.

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