Francisco, Obama e a Doutrina Social

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O papa e o presidente podem não ter tanto em comum quanto parece à primeira vista

“Destinação universal” pode parecer um jeito elegante de dizer que estamos todos indo para o mesmo rumo, mas essa expressão estranha é o nome de um princípio central da doutrina social da Igreja. E é também, por conseguinte, um ponto central da muito discutida exortação apostólica do papa Francisco, a Evangelii Gaudium (A alegria do Evangelho).

O ponto é importante particularmente à luz do anúncio de que o papa e o presidente norte-americano Barack Obama se encontrarão no final de março, em Roma, para falar, segundo as palavras de Obama, sobre a preocupação que ambos compartilham quanto à desigualdade econômica. É um assunto sobre o qual eles estão de acordo. Ou será que não?

Mesmo os analistas mais amigáveis da exortação apostólica pareceram muitas vezes perder impulso, com alguma razão. O documento é longo, desconexo e cravejado de generalizações excessivamente amplas, e essas lacunas facilitam que os leitores se distraiam e percam de vista o que as seções econômicas do texto estão realmente dizendo.

Comece-se pelo fato crucial de que, assim como outros documentos do Magistério sobre a justiça social, a Evangelii Gaudium não trata de políticas e de programas, mas de princípios. O mais importante deles é a destinação universal dos bens, entendida como uma base existencial para a partilha equitativa da riqueza do mundo (o que é bom recordar neste ano em que os EUA celebram o 50º aniversário da sua Guerra contra a Pobreza).

O papa Francisco, olhando para o cenário global, afirma: “Nunca devemos esquecer que o planeta pertence a toda a humanidade e é destinado a toda a humanidade; o simples fato de algumas pessoas nascerem em lugares com menos recursos ou com menos desenvolvimento não justifica o fato de elas estarem vivendo com menos dignidade” (Evangelii Gaudium, 190). Com os devidos ajustes, isto se aplica aos âmbitos locais dos EUA também.

papa não está dizendo nada de novo; outros papas já disseram o mesmo. Mas, aparentemente, isto é novo para alguns. Em conversa com vários leigos católicos bem formados, eu mencionei a destinação universal dos bens e recebi em troca olhares de descrença: a Igreja nunca disse nada disso, respondem eles. Evidentemente, há bastante trabalho a ser feito em termos de espalhar os conteúdos.

O princípio é bastante simples: Deus criou o mundo para que todos vivam nele, o cultivem e desfrutem dele, o que deveria reger também a distribuição dos frutos. O direito à propriedade privada, que também é afirmado pela Igreja, permanece imperturbável deste ponto de vista. Mas ele não é absoluto: o princípio que molda o seu exercício é a destinação universal dos bens. Francisco declara: “A propriedade privada dos bens é justificada pela necessidade de protegê-los e aumentá-los, para que eles possam melhor servir ao bem comum” (Evangelii Gaudium, 189).

Isto leva ao imperativo moral de redistribuir a riqueza de alguma forma. É neste ponto que muitos críticos perdem a calma, por interpretarem este princípio como um suposto apoio a uma pesada intervenção estatal na economia, a uma tributação ruinosa sobre os indivíduos e sobre as empresas privadas, desestimulando a iniciativa, e, enfim, todo o resto da “câmara dos horrores” neoliberal. O remédio de Francisco, porém, é outro: é a mudança moral; a conversão.

Ativistas de esquerda e de direita comumente se comportam como se as “estruturas” fossem suficientes para garantir justiça e prosperidade para todos: programas do governo, livre mercado ou alguma combinação de ambos. Mas as estruturas precisam se alicerçar na mudança do coração. Um não funciona sem o outro. As mudanças estruturais são necessárias, diz Francisco, mas complementa: “Somos chamados a encontrar a Cristo nos pobres, a emprestar a nossa voz para as suas causas… para ser seus amigos” (Evangelii Gaudium, 198).

Algumas pessoas se perguntam, com razão: isso é realista? A resposta é: talvez não, mas, se a Igreja não continuar a propor isto, certamente nunca será possível.

sources: Aleteia
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