A “Teologia do Povo” no Papa Francisco

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A palavra “povo” é utilizada 164 vezes na “Evangelii gaudium”. Mas como o Papa concebe este termo?

 

Desde o dia 13 de março de 2013, a teologia argentina  do povo foi foco de interesse como nunca antes havia sido. O Papa Francisco não é um dos seus ideólogos mais importantes, mas sim um dos seus intérpretes mais destacados, desde que estava em Buenos Aires, e a ofereceu ao mundo em sua exortação apostólica “Evangelii gaudium”. A palavra “povo” é citada 164 vezes no documento: povo de Deus, povo fiel de Deus.
 
O padre jesuíta Juan Carlos Scannone (1931), talvez o teólogo argentino mais reconhecido no exterior, é referência da teologia argentina do povo e da teologia latino-americana em geral. Ele elaborou um documento sobre a presença da escola argentina e latino-americana no magistério do Papa Francisco, no qual “aparece claríssimo todo o seu enfoque”.
 
Uma escola nem liberal nem marxista
 
Ao repassar, junto ao Pe. Scannone, os elementos centrais da Teologia do Povo, como é chamada esta corrente argentina, surge quase imediatamente um esclarecimento que ele não se cansa de repetir: a relação entre a teologia argentina e a versão mais difundida da Teologia da Libertação.
 
Já na década de 80, Scannone distinguia quatro correntes da Teologia da Libertação, “dentro das quais se encontra a teologia argentina do povo, mas que nunca, de forma alguma, teve algo a ver com a marxista”.
 
Leonardo Boff afirma que a categoria do Povo de Deus vem mais da noção de povo-classe, ou de povos como classes populares. Na teologia argentina, recorda Scannone, Boasso diz explicitamente: “Na América Latina, os que mais conservam a cultura do próprio povo, os valores do povo nação, são os pobres. E isso é muito típico de Bargoglio também.”
 
E continua: “Bergoglio sempre vai falar de nação, mas sobretudo dos pobres, dos mais necessitados. Tanto porque são os mais necessitados como porque são, além disso, os que mais conservam esta noção de povo”. A analogia que mobiliza o pensamento que inspira o Papa não é a de classe, como defende Boff, mas a de povo nação.
 
A cultura na Teologia do Povo
 
“O povo de Deus e os povos da terra” são temas centrais na Teologia do Povo. A cultura tem um papel fundamental nesta reflexão, porque é a partir da cultura que se concebe esse povo. “Daí a importância que tem para a Teologia do Povo a evangelização da cultura e a inculturação do Evangelho; é uma questão teológica e pastoral, e isso é muito Bergoglio”, afirma Scannone.
 
“Ainda que Bergoglio nunca tenha sido um teólogo, ele sempre foi um pastor”, e é evidente que ele se nutria desta corrente, observa o jesuíta.
 
A universalização da piedade popular
 
Pastoral e teologia caminham juntas em uma ideia muito própria da Teologia do Povo. A teologia é elaborada a serviço da cultura.
 
“O tema da cultura já estava presente no Concílio. Mas o tema da religiosidade popular chega ao Sínodo da Evangelização (1974) por meio de bispos latino-americanos, que já conheciam a teologia da COEPAL e de Gera. Paulo VI, na ‘Evangelii nuntiandi’, a eleva ao nível de magistério universal.”
 
Segundo esta teoria, a noção de religiosidade popular (ou piedade popular) nasceu na Argentina e é retomada pelo Papa por meio do Sínodo; e o que Puebla faz é aplicar a “Evangelii nuntiandi” (1975) à América Latina, explica Scannone.
 
Pessoas que influenciaram o pensamento do Papa
 
Lucio Gera talvez seja o teólogo mais importante entre os que marcaram a escola da Teologia do Povo, tão presente no pensamento do Papa Francisco. Também é evidente o reconhecimento do Papa a Dom Víctor Fernández, citado por ele na “Evangelii gaudium” e a quem consultava muito, quando estava em Buenos Aires.
 
E ainda que o Papa não o cite explicitamente na exortação, Dom Enrique Angelelli, bispo argentino morto durante a última ditadura militar, também está presente na “Evangelii gaudium”.
 
“O pregador também precisa ouvir o povo, para descobrir o que os fiéis necessitam escutar. Um pregador é um contemplativo da Palavra e também um contemplativo do povo”, diz Francisco no ponto 154, evocando “um ouvido no povo e outro no Evangelho”, recorda o prelado.

Esteban Pittaro

 

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