Síntese doutrinal, Teresa de Jesus

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Toda a espiritualidade tem as características do autor que a vive e da terra em que escreve. A razão é que a graça não destrói mas aperfeiçoa a natureza. Tudo exerce influência no escritor: o carácter, a terra, o céu coberto de nuvens ou o anil do firmamento.

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p style=”text-align:justify;”>Ora, Santa Teresa de Jesus era espanhola, castelhana, e ainda avilense; por isso, a sua doutrina, a espiritualidade que ela viveu, não pode deixar de ter qualquer coisa da Espanha, de Castela e de Ávila, sua terra natal, isto é, não pode deixar de ser um reflexo da sua terra e da sua raça. Tem a claridade do horizonte imenso e límpido de Castela, a têmpera do solo espanhol, o espírito aventureiro da sua gente, a alegre transparência do azulado firmamento. 
Na espiritualidade de Santa Teresa de Jesus não há sombras, nem nebulosidades, como nos místicos do norte. Tudo é luz, tudo claridade, tudo simplicidade. Deus é luz, diz a Escritura (Jo 1,10), e Teresa de Jesus quer viver sempre envolta em clarões de luz e respirar o ar puro do Céu. Fala em castelos, é verdade, estabelecendo o princípio do ser humano ter necessidade de entrar no “Castelo Interior” da sua alma, se quiser chegar à união com Deus; mas esse castelo é todo cheio de luz, com a transparência que lhe empresta o sol, que brilha no seu centro. E assim a espiritualidade teresiana, que se vive no Carmelo. Em quase todos os escritos desta carmelita aparecem mais ou menos visíveis três belíssimos símbolos: 

1º A alma é um Castelo, “Castelo Interior” que se deve conquistar e cujas místicas moradas devemos progressivamente percorrer. 
2º É um jardim, que se tem de cultivar e regar, de alguma das quatro maneiras que Teresa de Jesus nos indica: 
1 – tirando a água dum poço; 
2 – por meio de nora; 
3 – conduzindo a água por canais e ribeiros; 
4 – mediante a chuva, que vem do Céu. 

O 3º bicho-da-seda, é a imagem da alma que se quer santificar, transformando-se em Deus por amor, passando por mil e uma metamorfoses, chega a transformar-se numa borboleta que não descansa até levantar voo e pousar no seio de Deus, queimando-se logo toda no fogo do seu amor: é o matrimônio espiritual, o estado de união perfeita, consumada, com Deus, cuja maior glória somente ambiciona a alma apaixonada. 

Que livros escreveu Teresa de Jesus e qual é o argumento de cada um deles? 

Convém constatar primeiro que tudo o que Teresa de Jesus escreveu, não foi para vangloriar-se dos conhecimentos místicos ou proclamar-se mestra. Pegou na pena simplesmente por obediência (Cf 1 Moradas. 1.1) como ela diz muita vez nos seus escritos; levada unicamente pelo desejo de obedecer aos seus confessores e Superiores, de quem dependia, como uma criança da sua mãe. Mas, obrigada a escrever, fê-lo para orientar as suas filhas, as irmãs carmelitas Descalças, nos caminhos de Deus, designadamente no exercício da oração mental, que é, para ela, a porta de entrada no palácio da perfeição cristã, ou do “Castelo Interior” da alma, a pedra fundamental do edifício da santificação pessoal. 
Para a Teresa de Jesus, sem oração não há, não pode haver mesmo, progresso na virtude. E como um paralítico, que tem tolhidos os membros, toda a alma que não faz oração; eis uma ideia central, um dos pensamentos dominantes dos escritos da Madre Teresa de Jesus, especialmente na “Vida” e nas “Moradas”. 
O Livro da “Vida”, ou autobiografia, foi o primeiro livro que ela compôs por ordem dos seus confessores: P. Bañez e Fr. Garcia de Toledo, ambos religiosos dominicanos. E espelho de sinceridade e de humildade. Logo nas primeiras páginas já o leitor se sente preso ao livro. Ao lê-lo, duas coisas convém ter diante dos olhos: a ideia fraca que Santa Teresa fazia de si própria, e o exagero das suas faltas, que nunca chegaram a ser pecados graves (Vida 7), como dizem todos os seus confessores. 
A terceira parte do capítulo VI deste livro representa uma jóia da literatura josefina; é o melhor que se tem escrito sobre o glorioso Patriarca S. José e o seu patrocínio, que ela, à boca cheia, proclama universal. Santa Teresa é bem a mensageiro do culto a S. José, e desse culto ela nos deu notável exemplo consagrando-lhe quase todos os seus Carmelos. A parte mais importante deste livro são os capítulos que dedica a historiar as lutas e os duros combates que teve de sustentar para não sucumbir na conquista da perfeição, isto é, os altos e baixos da vida sobrenatural na sua alma, até ao triunfo completo de Deus. Também alguns capítulos são um verdadeiro ‘tratado de oração”, e que deveria ler todo aquele que queira aperfeiçoar-se. Explicando tecnicamente os diversos graus de oração, é nas páginas deste livro que Teresa de Jesus delícia o leitor expondo-lhe as quatro maneiras de se regar o jardim da nossa alma. Esta começou a escrever este livro em 1562, completando-o em 1565 no seu querido convento de S. José, em Ávila. O original conserva-se como preciosa relíquia no célebre mosteiro “El Escorial”. 

O “Caminho de Perfeição” surgiu a pedido das irmãs carmelitas descalças a Teresa de Jesus para que escrevesse outro livro, em que tocasse alguns pontos de oração, já tratados na “Vida”. 

A Santa Madre Teresa de Jesus, com o beneplácito do seu confessor, P. Domingo Bañez, quis fazer-lhes a vontade escrevendo tal livro, em Ávila, de 1564 a 1567. É bem um exercício ou treino das virtudes cristãs e religiosas; o mais prático tratado dos que saíram da pena brilhantíssima desta grande mulher. Guiada pela mão amiga de Santa Teresa, faz nele a alma a aprendizagem da virtude para a vida de cada dia. Está, por isso, ao alcance de todas as inteligências. Teresa de Jesus (escreve o 
P. Mário Martins no seu substancioso artigo “S. João da Cruz na espiritualidade portuguesa”) carteava-se com o Arcebispo de Évora, D. Teotónio de Bragança. Em Julho de 1579 mandava-lhe uma carta, hoje perdida, e também uma cópia do seu “Caminho de Perfeição” corrigida por ela própria. Queria a Santa de Ávila publicar em Portugal este “librito”, como ela dizia, mas a obra só veio à luz em 1583, quando já a sua alma descansava na paz duma vida melhor D. Teotónio escreveu para o livro um prólogo formoso e um belo protesto de fé e de obediência à Igreja Católica. Foi este o primeiro volume de Santa Teresa que saiu da imprensa, e aconteceu tudo isto na cidade Évora. 
O “Castelo Interior” ou as “Moradas” é a obra-prima de Santa Teresa, que lhe mereceu bem o título de Doutora Mística. Livro completo e perfeito no fundo e na forma, tem plano, partes e maravilhoso desenvolvimento de ideias. Foi escrito, por indicação do P. Jerónimo Graciano, no Carmelo de Toledo, em 1577. Encontrava-se, algumas vezes, a Madre Teresa Jesus, envolta num halo de luz, quando, na calada da noite, redigia estas páginas imortais. É tido, sem dúvida, por um dos livros mais preciosos que saíram da pena humana. Diz a este respeito Mendes do Carmo no prefácio à tradução deste livro: A obra máxima de Santa Teresa é o Castelo Interior ou as Moradas. 

Além destes livros, que são os principais, outros escreveu Santa Teresa de Jesus. Ei-los: as Fundações, muita vez citado nesta obra, Os conceitos do Amor de Deus, Modo de visitar os Conventos, Constituições das Descalças, Exclamações, Relações Espirituais, Avisos, Poesias e inúmeras cartas, que formam o seu rico “Epistolário”.

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