As Obras de Santa Teresa

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O gênero literário de Teresa de Jesus é tão original que requer um breve pórtico de entrada para a leitura das suas obras. Os quatro séculos que passaram desde a sua omposição não as separam nem as afastam de nós, da nossa problemática,dos gostos do leitor moderno.

Requerem, porém, uma atitude séria e não superficial, a que, infelizmente, o livro religioso contemporâneo não tem habituado o leitor. 
O leitor moderno está interessado, fundamentalmente, por dois dados. Em primeiro lugar, o facto da sinceridade ou autenticidade humana e religiosa de Teresa de Jesus escritora: a sua veracidade literária, que, concretamente, dá valor ao seu testemunho, segundo Bergson, Edith Stein e, em geral, segundo os grandes apreciadores da sua obra. Em segundo lugar, estão os dados essenciais,indispensáveis para nos aproximarmos um a um, dos escritos desta mulher. 
As feições de qualquer escrito teresiano estão determinadas pelos seguintes rasgos característicos: não são escritos doutrinais, de teoria, para preparar ou organizar um sistema de pensamento. A Autora é uma pessoa comprometida, de corpo e alma, numa vivência religiosa. Fala do que vive. Fala para quem se julgar capaz de viver algo dessa aventura. Em termos fortes: confessa ao leitor que a meio do caminho ela mesma teve de converter-se e que foi arrebatada por Cristo; e é esse um mundo real, sem ilusões e sem moinhos de vento. E confessa-o para perguntar, abertamente, ao leitor: não precisarás de te converter? Deus ou o teu Cristo são qualquer coisa mais do que ideias e história? 

Este gesto determina o que chamam “ gênero literário básico” desta Autora. 
Introduz o leitor num certo nível de profundidade e intimidade, e estabelece com ele um diálogo cruzado. As suas páginas não são páginas de livro. São apelos de conversão. Três personagens subsistem nesse diálogo, levado, talvez, ate à monotonia; personagens reais e profundamente originais: Ela, tu (leitor), Deus. Ela fala, não como “uma Autora” mas como uma pessoa presente, encarnada na palavra que diz e que não recebe de outros livros, fala do íntimo e experimentado na sua vida. Tu, leitor, não és o destinatário amorfo e anônimo dos livros de teoria mas, sim, o interlocutor presente, indispensável para que ela escreva. És o destinatário da carta” que é qualquer dos seus livros. Sem essa presença esta Autora seria incapaz de escrever; as palavras dissolver-se-iam no vazio. Tu, leitor, não te envergonhes nem te incomodes em seres tratado por tu, de amigas, e irmãs e minhas filhas”: estas, freiras carmelitas, foram realmente as destinatárias imediatas dos seus escritos. Mas os objetivos da Madre foram ultrapassados. Deus é o fator determinante e o mais desconcertante. Esta escritora, em qualquer página, passa do diálogo com o leitor ao diálogo com Deus sem que ninguém se aperceba, sem artifícios, sem ficção (sem a ficção dos velhos livros devocionais). Nessas páginas “Deus não morreu”.

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